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Feminino, solteiro e mais velho: o perfil de quem vai às urnas em 2024
15.01.2024 - 07h00
Rio de Janeiro - RJ
Os brasileiros voltam às urnas em 6 de outubro para as maiores eleições municipais da história do país, com mais de 152 milhões de eleitores. Cerca de 40% deles, residentes em cidades com mais 200 mil eleitores, podem retornar às suas seções ainda para eventuais disputas em segundo turno.
Mas qual é o perfil do eleitor que deve eleger prefeitos e vereadores em mais de 5,5 mil municípios? Para responder a essa pergunta, a Lupa analisou os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – atualizados em 2 de janeiro – sobre a composição do eleitorado brasileiro nesta primeira reportagem da série Lupa nas Eleições 2024. 
Se fosse hoje, o pleito mobilizaria 152,4 milhões de brasileiros. O número é inferior aos 155,3 milhões de cidadãos cadastrados atualmente na Justiça eleitoral. A diferença se deve ao fato de que quase 3 milhões de pessoas estão fora do pleito em decorrência do lugar onde vivem. Cerca de 745 mil residentes fora do país, por exemplo, votam apenas para presidente da República. Por sua vez, no Distrito Federal, com seus 2 milhões de eleitores, há governador e deputados distritais – e não prefeito e vereadores. Já em Fernando de Noronha, um distrito estadual de Pernambuco, as 3 mil pessoas aptas a votar elegem conselheiros distritais.
Apesar de o tamanho e as características desse contingente só se tornarem conhecidos definitivamente com o encerramento do prazo para alistamento eleitoral, em 8 de maio, as informações atuais indicam o predomínio de mulheres, pessoas solteiras, millennials e integrantes da geração X. Os dados apontam ainda que persistem os problemas históricos ligados à formação escolar do eleitorado, como o alto índice de analfabetismo. 

Mulheres são 52% do eleitorado

Em termos de gênero, as eleições municipais deste ano terão um eleitorado muito parecido às anteriores. Do total de eleitores, 52,6% são do sexo feminino, cerca de 8 milhões de votos a mais do que do sexo masculino. A diferença percentual, entretanto, está na casa da vírgula em relação ao registrado nos pleitos municipais de 2020, 2016 e 2012 – primeiro com perfil do eleitorado disponível na plataforma do TSE.
O índice, todavia, varia bastante entre os municípios brasileiros. Em 15 cidades – incluindo as capitais Maceió (AL), Aracaju (SE), João Pessoa (PB), Recife (PE), Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN) –, por exemplo, as mulheres representam 55% ou mais dos eleitores cadastrados. Porto Alegre (RS), com 54,99%, é outra capital que poderia entrar na lista com um arredondamento estatístico. Em termos de comparação, apenas seis cidades brasileiras têm um eleitorado masculino nesta proporção: Marajá do Sena (MA), Nova Serra Dourada (MT), Chapada de Areia (TO), Monte Santo do Tocantins (TO), Piraquê (TO) e Nova Bandeirantes (MT), todas com menos de 10 mil habitantes. 
As eleitoras também são maioria quando se observa a distribuição por estados. Depois do Distrito Federal (54%), fora do pleito, por exemplo, Rio de Janeiro é a unidade da Federação com maior percentual de mulheres registradas no TSE – 53,8% –, seguido de Pernambuco (53,5%) e Alagoas (53,3%).
A superioridade numérica feminina no eleitorado brasileiro, contudo, não é reproduzida entre eleitos na mesma proporção. Entre prefeitos e vereadores, há majoritariamente homens, como veremos nas próximas duas reportagens desta série especial, que serão publicadas ao longo desta semana.  

Um eleitorado de solteiros

Ao menos no papel, os solteiros são maioria entre eleitores. Isso não significa, contudo, um país de solitários ou solteirões. O grupo, que representa 59,4% do eleitorado, é composto também por pessoas em união estável – tipo de convivência entre duas pessoas que não altera o estado civil de ambos. Já os casados representam 32,8% dos brasileiros registrados no TSE. Separados, divorciados e viúvos somam menos de 8%. 
O cadastro da Justiça eleitoral, todavia, não acompanha a velocidade da vida amorosa dos brasileiros. Como o estado civil é indicado pelo cidadão no momento do alistamento eleitoral e em atualizações cadastrais posteriores, mudanças de status ocorridas entre um período e outro não são inseridas no sistema do TSE. Por outro lado, o cadastramento biométrico tem contribuído para o ajuste do estado civil de milhões de brasileiros no sistema. 
Os dados revelam, mesmo assim, um aumento de 7,4% no número de solteiros – de 84,6 milhões para 90,9 milhões – de 2020 para cá, ao mesmo tempo em que houve queda de 3% no total de eleitores casados. O cadastro do TSE ainda permite compreender diferenças sensíveis entre estados.
Em seis unidades da Federação, o número de solteiros é superior a 70% – todos nas regiões Norte e Nordeste: Amapá (79,3%), Amazonas (74,7%), Pará (72,3%), Maranhão (72,10%), Roraima (70,43%) e Sergipe (70,21). Em contraposição, os estados com pelo menos 1/3 dos eleitores casados estão no Sul e Sudeste em sua maioria: Paraná (41,2%), Santa Catarina (37,8%), Espírito Santo (36,9%), São Paulo (36,8%), Goiás (36,27%), Rondônia (36,1%), Minas Gerais (35,2%), Mato Grosso do Sul (34,7%), Mato Grosso (34,5%), Paraíba (33,64%) e Rio Grande do Sul (33,6%).
Entre as cidades, Ipixuna (AM) é a com mais eleitores solteiros – 92,8% dos seus 10,9 mil eleitores não têm vínculo matrimonial formal. Outros três municípios do Amazonas – Atalaia do Norte, Jutaí e Tonantins – também possuem um percentual de solteiros superior a 90%. Entre as 100 cidades com mais solteiros, 99 estão nas regiões Norte e Nordeste – a exceção é a goiana Cavalcante.

1/3 do eleitorado não completou o Ensino Fundamental

Cerca de 50 milhões de eleitores dizem não ter completado o Ensino Fundamental. Pese o indicador sofrer com os mesmos problemas de atualização do estado civil mencionados acima, o número é significativo ao se considerar que um jovem eleitor já poderia ter concluído o Ensino Fundamental aos 15 anos – nove anos de ensino a partir dos seis anos de idade e antes, portanto, do momento do alistamento eleitoral entre 16 e 18 anos. 
Mesmo considerando que atrasos e repetências poderiam estar por trás de cadastro eleitoral desatualizado, um outro recorte de escolaridade, ainda mais específico, indica que o problema é, em parte, de acesso à educação formal prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação – uma legislação em vigor há quase três décadas. 
O contingente de eleitores que se declaram analfabetos ou afirmam saber apenas ler e escrever chega a 15,9 milhões de brasileiros, o que corresponde a 10,5% do total. Apesar de o percentual ter caído pela metade em relação ao pleito de 2012, quando 19% do eleitorado brasileiro (26,4 milhões cidadãos) estava nessa situação, o quadro segue crítico em muitas localidades. 
Em 214 municípios, por exemplo, os eleitores analfabetos ou que dizem saber apenas ler e escrever correspondem a pelo menos 1/5 da população. Em alguns casos, como Monteirópolis (AL), que lidera o indesejável ranking, o percentual do eleitorado nessa condição chega aos 30,7%. Em outra cidade, Érico Cardoso (BA), o índice de analfabeto entre eleitores é de 25,9% – o maior do país. Na ponta oposta da formação acadêmica, está a paulista São Caetano do Sul, onde 37,6% do eleitorado diz ter diploma universitário e o percentual de analfabeto é de apenas 0,1%. 
Entre as unidades da Federação, apenas o Distrito Federal (DF) tem índice de analfabetismo inferior a 1%. O DF  é seguido por Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, com percentuais menores a 2%. Já as maiores proporções de eleitores com nível Superior, depois novamente de Brasília, incluem São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, todos com cerca de 14% do eleitorado com graduação concluída. 
Os dados indicam ainda um eleitorado formado majoritariamente por eleitores com Ensino Médio, nem sempre completo: pouco mais de 67 milhões de cidadãos – 44% do total, segundo o TSE. Em 176 municípios, o índice supera os 50%, como na maranhense Paço do Lumiar (63,1%), cidade com maior proporção de eleitores que ingressaram no Ensino Médio, mas não avançaram ao nível Superior.

Votantes mais velhos

As eleições municipais deste ano terão ainda um eleitorado mais velho em comparação a pleitos anteriores, acompanhando a tendência na população brasileira observada a partir de dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE). Apesar das campanhas de alistamento eleitoral de jovens realizadas nos últimos anos, o índice atual de eleitores com idades entre 16 e 17 anos (0,72%), por exemplo, é 1/3 do registrado no pleito de 2012 (2,1%). 
E não se trata apenas de uma queda em termos percentuais derivada do aumento da longevidade no país. O número total de adolescentes registrado também caiu drasticamente de 2,9 milhões para pouco mais de 1 milhão nesse período. Para efeito de comparação, apenas 452 municípios no país possuem um percentual de eleitores adolescentes igual ou superior ao registrado em 2012 – nenhuma capital. Do total, 63,5% dessas cidades têm menos de 10 mil eleitores. 
O encolhimento da participação também é verificado nas faixas etárias seguintes. Proporcionalmente, há menos jovens adultos entre 18 e 24 anos do que em eleições municipais passadas. Como entre adolescentes, o número absoluto também diminuiu: cerca de 3,3 milhões entre 2012 e 2020. Em contraste, pessoas com mais de 60 anos já correspondem a 21,5% do eleitorado. Nas eleições de 2012, o mesmo grupo etário detinha apenas 13,6% do total de votos. Em outras palavras, um em cada cinco títulos ativos agora pertence a um idoso.  
Trata-se de uma pirâmide etária envelhecida, em que a base de jovens mais estreita indica redução no número de novos eleitores. Fenômeno que afeta também a representação da população de meia idade. Apesar de a maior parte dos votos pertencer a cidadãos entre 25 e 59 anos, millennials e integrantes da geração X correspondem a 60,8% do eleitorado, menos do que em 2012 quando o índice era de 66%.
Quando se investiga a situação por estados, é possível verificar uma distribuição etária semelhante aos números nacionais. Dez deles, no entanto, têm uma proporção de adolescentes ainda menor do que o índice nacional: além de São Paulo, os estados de Maranhão, Roraima, Mato Grosso do Sul, Piauí, Paraíba, Paraná, Rondônia, Espírito Santo e Acre integram essa lista. Cinco deles também têm a maior proporção de eleitores com mais de 79 anos: Roraima, Paraíba, Paraná, Rondônia, Espírito Santo e Acre – estado onde 5% já é octogenária.

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Francisco Amorim
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