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Masculino, casado e branco: o perfil dos prefeitos eleitos nos últimos 20 anos
17.01.2024 - 07h00
Rio de Janeiro - RJ
Homem, branco, cinquentão, casado e com Ensino Superior completo. Esse é o perfil do prefeito eleito no Brasil nas eleições municipais de 2020, retrato que mudou pouco ao longo dos últimos 20 anos e contrasta com cor e gênero predominantes na população e eleitorado brasileiro. Na segunda reportagem da séria Lupa nas Eleições, a Lupa analisou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dos últimos seis pleitos, desde 2000, primeiro a contar exclusivamente com urnas eletrônicas.
Ao longo desse período, 98.698 candidaturas a chefe do Executivo municipal foram registradas pela Justiça eleitoral – 19,3 mil somente em 2020, maior volume anotado pelo TSE. Estável em pleitos anteriores, o número foi 16,9% maior do que o registrado quatro anos antes, em 2016. O acréscimo de candidatos veio acompanhado pelo aumento da diversidade. O crescimento de mulheres e negros na disputa eleitoral se converteu, por sua vez, na conquista de mais prefeituras, mas o número segue em descompasso com a realidade social brasileira. 

Mais mulheres 

Pese ainda pequeno, o percentual de candidatas para o Executivo municipal vem aumentando desde 2000. Naquela eleição, as mulheres representavam apenas 7,6% do total de candidaturas. Vinte anos depois, o índice chegou a 13,4%, adicionando 2,6 mil mulheres a uma disputa eleitoral com 16,7 mil homens.
Apesar de o número de mulheres eleitas ter dobrado em duas décadas, sua participação segue assimétrica à sua presença na população e no próprio eleitorado brasileiro. Enquanto 52% do total de eleitores é feminino – percentual que permanece estável nesse período, como apontou a primeira reportagem desta série –, apenas 12,1% das prefeituras ficaram nas mãos delas nas eleições de 2020. Cenário um pouco melhor, contudo, do que o registrado na corrida eleitoral de 2000, quando o percentual ficou em 5,75%. Embora distante da proporcionalidade em termos populacionais, é possível verificar uma correspondência estatística entre os percentuais de registro de candidatas (13,4%) e de mulheres eleitas (12,1%). 
O melhor desempenho das mulheres em 2020 foi alcançado nos estados do Norte e Nordeste. Em seis deles, a proporção de eleitas foi igual ou superior a 1/5: Alagoas (21,8%), Maranhão (21,7%), Pará (20,4%), Pernambuco (19,4%), Rio Grande do Norte (22,4%) e Roraima (26,7%) – onde elas alcançaram o melhor desempenho, vencendo em quatro dos 15 municípios. 
O pior desempenho feminino nas urnas foi no Espírito Santo, com apenas uma eleita em 78 municípios (1,3%). Uma situação semelhante à ocorrida no Amapá, onde apenas uma prefeita foi eleita, mas entre 16 municípios (6,3%). Além dos dois estados, outros seis elegeram até 10% de mulheres para o cargo: Mato Grosso do Sul (6,7%), Minas Gerais (7,2%), Rio Grande do Sul (7,7%), Amazonas (8,2%), Santa Catarina (9,5%) e São Paulo (10%).

Brancos predominam

As eleições municipais, como quaisquer outras dimensões da vida cotidiana brasileira, são atravessadas não apenas por questões de gênero, mas também raciais. Os dados sobre cor e raça dos candidatos, contudo, são limitados nos registros do TSE. Não há, por exemplo, informações precisas disponíveis até as eleições municipais de 2016. 
A reduzida base, entretanto, não impede a identificação de outros problemas de representatividade. Enquanto a maior parte da população brasileira se declara parda (45,3%), segundo dados do Censo 2022 – em maior número do que brancos (43,5%), pretos (10,2%), indígenas (0,8%) e amarelos (0,4%) –, a maioria dos candidatos inscritos e dos prefeitos eleitos se autodeclara de cor branca.
Nas eleições de quatro anos atrás, 62,9% candidatos eram brancos, 31,4%, pardos e 4,3%, pretos – indígenas e amarelos somaram menos de 1% das candidaturas. Entre os eleitos, por sua vez, 67,1% se autodeclararam brancos no momento do registro, enquanto 30% eram pardos e 2%, pretos. 
Em todo o Brasil, os povos originários conseguiram eleger apenas oito prefeitos. Eles venceram as eleições nas cidades de Marechal Thaumaturgo (AC), Pariconha (AL), São Gabriel da Cachoeira (AM), São João das Missões (MG), Marcação (PB), Normandia (RR), Uiramutã (RR) e Arroio Grande (RS).
Em 13 estados, todos localizados nas regiões Norte e Nordeste, candidatos autodeclarados pardos tiveram melhor desempenho, conseguindo conquistar percentual de prefeituras correspondente ou superior à sua presença na população brasileira (45,3%). Nesses estados, eles venceram, ao menos, em 45,5% das disputas. O melhor desempenho foi no Amazonas – vitória em 77% das cidades. Na ponta debaixo da tabela, aparece o Rio Grande do Sul, com 1,6% das prefeituras com novos gestores autodeclarados pardos.
Entre autodeclarados pretos, o índice mais alto, mas ainda pouco expressivo, foi alcançado em Roraima, onde venceram em apenas 6,7% dos municípios. Dados do TSE indicam um problema de representatividade ainda mais grave em seis estados. Nenhuma vitória foi registrada por esse grupo de candidatos no Rio Grande do Sul, Ceará, Rondônia, Espírito Santo, Santa Catarina e Amazonas.
Quatro anos antes, nas eleições municipais de 2016, o cenário não foi muito diferente, com números que também destoam da formação étnica brasileira. Nesse pleito: 66,4% dos candidatos e 70,3% dos eleitos se declararam brancos. Autodeclarados pardos, por sua vez, venceram em apenas 27,4% das cidades. Em apenas 10 estados, pardos conquistaram um percentual de prefeituras igual ou superior à sua participação na população. 
Já os autodeclarados pretos venceram a disputa em apenas 93 municípios (1,7%) em 2016. Em somente um estado – Amapá – eles atingiram percentual superior à sua participação na população brasileira, vencendo em 18,7% das cidades. Indígenas, por sua vez, ganharam a eleição em só seis municípios.
Um fenômeno estatístico semelhante ao observado nas candidaturas femininas se repetiu entre candidatos autodeclarados pardos e pretos em 2020. A soma dos percentuais de candidaturas de pardos e pretos foi proporcional ao resultado deles nas urnas – o grupo foi responsável por 35,6% dos registros no TSE e venceu em 32% dos municípios.

Cinquentões preferidos

Os dados do TSE indicam ainda uma mudança de idade entre os eleitos. Candidatos cinquentões levaram vantagem na preferência do eleitorado nos últimos dois pleitos (2016 e 2020) sobre as demais faixas etárias. O grupo corresponde a 31,2% dos eleitos na disputa mais recente, contra 30,6% dos quarentões, os preferidos dos eleitores até 2012. A mudança parece acompanhar o envelhecimento do eleitorado, como revelado na primeira reportagem desta série.
Entre os estados, não se observa contrastes significativos em relação à idade de quem vence as eleições municipais. Dois deles, entretanto, chamam um pouco mais a atenção. O Paraná tem a proporção mais alta de cinquentões em relação ao índice nacional – o percentual de eleitos na faixa etária entre 50 e 59 anos chegou a 39,6% em 2020. Já Roraima registra um fenômeno distinto: 60% dos eleitos tinham entre 40 e 49 anos quando venceram.
Prefeitos jovens, por sua vez, seguem raros no Brasil. Nas eleições de 2020, apenas 116 eleitos tinham até 29 anos – a idade mínima para concorrer ao Executivo municipal é 21 anos. Em termos de comparação, candidatos com mais de 70 anos conquistaram 197 prefeituras na votação de quatro anos atrás.

Time dos casados

Além de mais velhos, os candidatos eleitos são, em sua maioria, casados. Se entre o eleitorado, predominam solteiros, entre os prefeitos prevalece o matrimônio. O grupo corresponde a 71,8% dos vencedores nas eleições de 2020. O percentual, contudo, cai pleito a pleito. Em 2000, início desta série histórica, 83,2% dos novos prefeitos eram casados – mas o índice cai à medida que o número de solteiros e divorciados entre os eleitos cresce de forma constante. 
Em alguns estados, no entanto, como Paraná, Pernambuco e Espírito Santo, o percentual seguiu na casa dos 80%, na disputa de 2020. Já em Roraima e Amapá, uma realidade distinta: os solteiros venceram em 46,8% e 43,7% das cidades, respectivamente.

Maioria com diploma 

Ao longo dos anos, o perfil acadêmico dos prefeitos também tem mudado, com aumento da escolaridade dos candidatos vencedores. Enquanto a maior parte do eleitorado brasileiro parou no Ensino Médio, a formação dos eleitos inclui o Ensino Superior e, na maior parte dos casos, com graduação completa. Nas eleições de 2020, por exemplo, 60,3% dos eleitos tinham, ao menos, ingressado na faculdade – 55,6% deles já estavam formados quando venceram a corrida municipal.
Apesar disso, ainda é possível identificar problemas na formação: 40 candidatos eleitos em 18 estados na disputa de 2020, por exemplo, declaram à Justiça eleitoral apenas saber ler e escrever. Outros 5,1% dos eleitos não haviam completado o Ensino Fundamental – o menor percentual das últimas seis eleições. O número é bem inferior ao registrado em 2000, por exemplo, quando 13,4% dos novos prefeitos haviam abandonado os estudos antes de concluir o antigo 1º Grau.
Ao observar dados regionais, é possível identificar diferenças entre estados. Em alguns deles, o percentual de eleitos em 2020 sem finalizar o Ensino Fundamental foi maior. Em Rondônia, chegou a 13,5%, e, no Amazonas, 9,8%. 
Entre as candidaturas à vaga de prefeito, outra diferença significativa pode ser observada quando se leva em consideração o recorte de gênero: as mulheres têm atualmente a melhor formação acadêmica. Na disputa de 2020, por exemplo, 75,2% das eleitas tinham Ensino Superior completo, contra apenas 52,8% dos homens.

Prefeito profissional

Um quarto dos eleitos declarou ainda no registro de sua campanha em 2020 que sua ocupação é ser prefeito. É a principal atividade profissional referida pelos candidatos vitoriosos desde 2008, seguida pela de empresário. Nas disputas de 2000 e 2004, esse número era bem menor – 5,1% e 5,7%, respectivamente –, predominando na época os donos de estabelecimentos comerciais.
A declaração está relacionada, em parte, à tradição de reeleição no país – a prática política, por exemplo, também é comum na disputa para o cargo de vereador, como mostrará a terceira reportagem desta série, a ser publicada na próxima sexta-feira. Nas últimas eleições municipais, por exemplo, 17% dos vitoriosos já haviam conquistado a prefeitura quatro anos antes – ou seja, um em cada seis foi reeleito. No país, 973 prefeitos acabaram sendo reconduzidos ao cargo no pleito de 2020.
Em alguns estados, contudo, a proporção foi bem maior. No Amapá, o percentual de reeleitos foi de 50% – o maior do país –, seguido por Amazonas (29,5%) e Mato Grosso do Sul (29,3%). A renovação na administração municipal, por outro lado, foi mais forte no Ceará, onde o índice de reeleição ficou em 10%. Apesar de o percentual variar entre as unidades da Federação, não há, como em outras características dos candidatos eleitos, padrões regionais mais claros de comportamento do eleitor quando o assunto é reeleição.

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