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Vacinas da Covid são eficazes e seguras para crianças; veja o que dizem especialistas e ciência
18.01.2024 - 12h12
Florianópolis - SC
Vacinação de crianças contra a Covid-19 é autorizada no Brasil desde dezembro de 2021 - Imagem: José Cruz/Agência Brasil
As evidências científicas sobre a eficácia das vacinas contra a Covid-19, que salvaram ao menos 20 milhões de pessoas em todo o mundo, ainda não foram suficientes para desencorajar uma nova onda de negacionismo científico e conteúdos distorcidos sobre a vacinação em crianças no Brasil.  
Desde 1º de janeiro, quando o Calendário Nacional de Vacinação passou a incluir a versão pediátrica desse imunizante para a faixa etária de seis meses a quatro anos e 11 meses, as redes sociais voltaram a ser palanque para discursos que negam a ciência propagados por pessoas que não são especialistas da área da saúde — inclusive políticos. 
Monitoramento da Lupa identificou que os termos “vacina”, “Covid” e “criança” foram tema de mais de 2,7 mil posts somente no Facebook entre 17 de dezembro de 2023 e 17 de janeiro de 2024. Segundo o CrowdTangle, ferramenta de análise de redes sociais, as publicações que tiveram maior engajamento foram as postadas em contas de políticos de direita, como o senador Magno Malta (PL-ES) e os deputados federais Caroline de Toni (PL-SC) e Mário Frias (PL-SP), além de páginas bolsonaristas.
Em comum, os conteúdos publicados por esses perfis questionam a obrigatoriedade da vacina para crianças a partir de seis meses — o que não é correto, uma vez que o Ministério da Saúde passou a recomendar, e não a obrigar, a imunização dessa população — e acusam o Estado de intervir na liberdade da população. 
Nas redes sociais, publicações sobre vacina que tiveram mais engajamento questionam a inclusão do imunizante contra a Covid-19 no PNI
Vale pontuar que, apesar de já existirem há pelo menos três anos imunizantes seguros e capazes de evitar mortes e hospitalizações pela Covid-19, 135 crianças menores de 5 anos morreram no país até outubro de 2023 em razão da doença. Por outro lado, em todo o país, a cobertura vacinal dessa faixa etária com três doses era de apenas 10,25% (página 29). De acordo com a edição mais recente do Boletim Epidemiológico de Monitoramento da segurança das vacinas COVID-19 no Brasil (página 15), publicado em junho de 2023, não foi confirmado nenhum óbito de crianças causado pela vacina.
A reportagem ouviu especialistas em pediatria, infectologia e saúde pública e reuniu os resultados dos testes clínicos dos imunizantes para explicar o que diz a ciência sobre as vacinas da Covid-19 na proteção das crianças. Confira:

Vacinas são seguras para crianças a partir de 6 meses

Desde dezembro de 2021, o Brasil e mais de 60 países autorizaram a vacinação em crianças a partir de 5 anos. Na época, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que os imunizantes eram seguros e eficazes e recomendou dose reduzida da vacina para essa faixa etária: 10 microgramas em vez de 30 microgramas aplicados para maiores de 12 anos.
Já em crianças a partir de seis meses de idade, a aprovação no Brasil foi em setembro de 2022. Até o momento, duas vacinas são autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o público infantil: a Comirnaty (Pfizer/Wyeth)  — incluindo a Comirnaty bivalente —, indicada a partir de 6 meses de idade; e a Coronavac (Butantan), indicada para crianças a partir de 3 anos.
Ambas foram testadas antes de serem autorizadas e aprovadas por agências reguladoras em todo o mundo. A Comirnaty, por exemplo, única que pode ser aplicada em bebês no Brasil a partir de seis meses e a que agora integra o Programa Nacional de Imunizações (PNI), passou por uma série de ensaios clínicos com a população pediátrica que indicaram proteção contra mortes e formas graves da Covid-19
Em 9 de janeiro de 2024, o periódico médico Annals of Internal Medicine publicou o resultado de um estudo robusto que analisou quase 4% da população pediátrica dos Estados Unidos durante as ondas das variantes Delta e Ômicron. Os pesquisadores concluíram que a vacinação teve eficácia de 74,3% contra a infecção, 75,5% contra casos moderados ou graves e 84,9% contra hospitalizações.
Outro exemplo relevante de estudo sobre os benefícios da vacina é de dezembro de 2023, quando a revista científica Nature publicou uma pesquisa que mostra as vacinas de RNA mensageiro da Pfizer reduziram o risco da chamada Covid longa (desenvolvimento de sintomas duradouros do coronavírus Sars-CoV-2) em crianças.

Apesar do tempo recorde, pesquisas sobre novas vacinas já estavam em andamento

Desde as primeiras ondas desinformativas sobre as vacinas, um dos argumentos recorrentes contra os imunizantes era o fato de terem sido produzidos em tempo recorde. Especialistas relembram, no entanto, que cientistas em todo o mundo já se debruçavam em estudos sobre novas tecnologias e fórmulas para prevenir doenças.
“Era o que o mundo esperava diante de qualquer doença: uma vacina que funcione e evite mortes. Isso efetivamente aconteceu em um tempo muito rápido, em grande parte com base em conhecimentos anteriores de outras vacinas em tecnologias preexistentes. Esse conhecimento não partiu do zero”, diz o médico sanitarista da Fiocruz de Brasília, Claudio Maierovitch, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). 
É o caso das vacinas de RNA mensageiro recombinante (caso da vacina da Pfizer), tecnologia que vem sendo estudada há 20 anos. Nesse sentido, o médico sanitarista entende que a primeira coisa que cabe desmistificar é que a vacina contra a Covid-19 foi uma novidade. “Não foi. Já tinha muita coisa sendo produzida. O que aconteceu foi a aplicação dessa tecnologia a um vírus específico”. 
A Coronavac, desenvolvida no Brasil em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, é outro exemplo. Sua tecnologia é baseada na utilização de vírus inativado para gerar uma reação no sistema de defesa do corpo.
Todas as vacinas da Covid passaram por estudos e testes clínicos de fase 1, 2 e 3, comuns a qualquer medicamento, antes de serem ofertadas à população mundial. “Como qualquer outro fármaco, a partir do momento que entra em uso, se inicia observação, que algumas pessoas chamam de fase 4 ou de farmacovigilância. E, claro, quanto mais tempo de aplicação e maior número de pessoas beneficiadas, mais chance de eventos raros serem percebidos”, diz Maierovitch. “A amostra [a partir dos ensaios clínicos] era suficiente para indicar que o risco da vacina era muito menor do que o risco da própria doença no período em que o novo coronavírus era frequente. E assim seguiu-se a vacinação de bilhões de pessoas. Todas as vacinas que estão em uso atualmente têm um balanço muito positivo: salvam muito mais vidas e poupam pessoas de sofrimento do que causam problemas”, ressalta o sanitarista.
Especular sobre efeitos a longo prazo é ‘contraproducente’
Além de publicações que criticam a inclusão da vacina da Covid-19 no PNI, conteúdos monitorados pela reportagem também tentam colocar em xeque a segurança das vacinas ao alegar que não existem pesquisas sobre os efeitos de longo prazo das fórmulas.
Nas redes, estratégia é colocar em xeque segurança das vacinas ao especular sobre a falta de estudos dos efeitos de longo prazo
Especialistas, no entanto, rebatem essa teoria. Além do fato de que as tecnologias usadas para desenvolver os imunizantes já eram pesquisadas há décadas, é incomum que medicamentos sejam levados para o mercado somente após 30 anos de observação, por exemplo, para avaliar possíveis eventos adversos de longo prazo. 
“Nenhum medicamento ou vacina vai para o mercado com anos de experiência. Vai, sim, com resultados confiáveis e critérios do estudo. Mas uma análise de como serão os próximos 30 anos, nunca soube”, diz a médica Isabella Ballalai, do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro (Soperj). 
Vale ainda pontuar que nenhuma vacina teve uma fase 4, também chamada de farmacovigilância, tão robusta como a da Covid-19. “Negacionistas diziam que a fase 4 era uma ‘experiência’. Mas, na verdade, é uma obrigatoriedade acompanhar qualquer medicamento quando é disponibilizado para a população. No caso dos imunizantes contra o Sars-CoV-2, foram bilhões de pessoas em todo mundo em um curto espaço de tempo”, continua a médica.
O sanitarista da Fiocruz tem a mesma percepção.“É quase impossível que eventos adversos que não são observados nos primeiros dias ou meses após a aplicação da vacina apareçam anos mais tarde. O que se conhece dos efeitos colaterais das vacinas existentes é que, em sua esmagadora maioria, aparecem nos primeiros dias após a vacinação”, diz Maierovitch.
Outro ponto levantado pelos dois médicos e pesquisadores é o tamanho da amostra de pessoas inoculadas com doses de vacina contra a Covid-19 para farmacovigilância. “Normalmente, na medida em que o tempo passa, aumenta a amostra do que está sendo observado. Passo a saber o que aconteceu com 10, 100 milhões de pessoas que tomaram a vacina, e não apenas 100 mil. Nesse sentido, uma campanha de vacinação do tamanho da Covid-19 é capaz de multiplicar o tempo. Ou seja, em pouco tempo muita gente recebeu as doses. E essa é a questão principal: ter uma amostra de pessoas grande o suficiente para que se observe efeitos raros”. 
Vale ainda destacar que os eventos adversos relatados até o momento são raríssimos e, de maneira geral, sem sequelas ou complicações futuras. Para Maierovitch, o mundo conta com um instrumento capaz de evitar a morte e o sofrimento de crianças e, portanto, do ponto de vista ético e moral, esse instrumento tem que ser utilizado. “Temos um número grande de crianças que morreram, foram hospitalizadas ou que hoje sofrem com os efeitos da Covid longa. Ao mesmo tempo, temos uma ferramenta capaz de evitar isso e de proteger essas crianças com risco desprezível de problemas”, afirma. “Do ponto de vista técnico, não podemos, como sociedade, admitir que crianças sofram e morram por omissão ou ignorância”.  

Sociedades médicas criticam pesquisa proposta pelo CFM

Enquanto negacionistas tentavam fazer barulho nas redes sociais sobre a inclusão da vacina da Covid-19 no PNI para crianças a partir de seis meses, o Conselho Federal de Medicina (CFM) lançou, em 9 de janeiro, uma pesquisa para entender a percepção de médicos brasileiros sobre a obrigatoriedade da vacinação infantil contra a doença.
A atitude do CFM provocou uma série de críticas de entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), entre outras, que acusaram a instituição de “atentar contra a ciência”. 
A pesquisa tem perguntas subjetivas e que foram criticadas por especialistas por induzirem a uma interpretação enviesada sobre o tema. Em nota, a SBIm alegou que a pesquisa não oferece benefício à sociedade porque, “ao equiparar crenças pessoais à ciência – pode gerar insegurança na comunidade médica e afastar a população das salas de vacinação”.
“Tenho a impressão de que a intenção da pesquisa é confundir. Ela tenta buscar opiniões e não conhecimento. Opiniões, inclusive, de médicos sem qualquer proximidade com o tema. A própria redação tenta induzir a uma contraposição entre o apoio à vacina e a preservação da liberdade individual”, diz Claudio Maierovitch, vice-presidente da Abrasco.
Ele cita como exemplo a última pergunta, que questiona se pais e responsáveis têm ou não o direito de opinar sobre a vacina. “É uma redação matreira, que quer dar a entender que o Estado está querendo tirar o direito da população, como se o Estado estivesse ofendendo liberdades individuais. Isso, para mim, é um claro movimento político de uma diretoria já tinha se omitido durante a pandemia”, opina o sanitarista.  
Vale lembrar que, durante a pandemia, o CFM foi também alvo de polêmicas por não se posicionar criticamente e cientificamente em relação ao uso de medicamentos que não tinham eficácia comprovada, defendendo a autonomia de cada médico para prescrever o melhor tratamento.Para a médica Isabella Ballalai, da SBP, a vacinação infantil contra o Sars-CoV-2 é o grande “case negacionista” da ciência. Segundo a médica, a pesquisa do CFM alimenta o discurso de quem nega a ciência.
Ela lamenta o fato de que durante a pandemia as crianças foram consideradas de menor risco em relação às pessoas idosas e com comorbidades, porque isso fez com que esse grupo fosse o último contemplado com a vacinação. Ao mesmo tempo, o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde (página 1), de outubro de 2023, indica que a tendência de aumento de casos de Covid-19 está justamente entre menores de quatro anos de idade.
Em resposta às críticas, o CFM publicou uma nota na qual afirma que a “pesquisa não contesta a eficácia ou a decisão do Ministério da Saúde de disponibilizar a vacina para a população infantil”.  Diz ainda que o objetivo é “compreender a visão dos médicos” sobre sobre a “obrigação imposta aos pais para que as crianças nessa faixa etária sejam vacinadas contra a Covis-19, independentemente de prescrição médica”.
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Evelyn Fagundes
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