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Artigos citados em vídeo não provam que vacina gera mais casos de miocardite que vírus
19.01.2024 - 17h19
João Pessoa - PB
Circula nas redes sociais vídeo publicado pelo médico Dermeval Reis Junior criticando uma postagem do Ministério da Saúde que afirma que vacinados contra a Covid-19 têm menos risco de desenvolver miocardite (inflamação do miocárdio, tecido muscular do coração) do que após a infecção pelo vírus. Para provar que o post é uma "fake news", o médico mostra uma série de artigos anexados na plataforma de dados PubMed que supostamente provariam a farsa. É falso.
Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
Eu resolvi fazer uma busca no banco de dados do PubMed, que é onde a gente faz pesquisa e puxa artigos [...]. No entanto, o que foi dito nessa postagem do governo é uma grande mentira, é uma fake news, né? É uma fake news oficializada e nós não podemos mais cair no conto do vigário dessa forma. [...] Então vejam o que tem de material mostrando a evidência, o fato, e o governo lançou agora um post aí nas redes dizendo que quem toma o veneno, que isso não é vacina, jamais, tem menor possibilidade de miocardite"
– Trecho de vídeo que circula no WhatsApp
Falso
Nenhum dos sete artigos que aparecem no buscador do PubMed citados pelo médico desmente a informação de que o risco de desenvolvimento de miocardite é menor entre vacinados do que após a infecção pelo Sars-CoV-2. A maioria deles, inclusive, não se propõe a fazer essa análise. Neles, pesquisadores buscaram examinar a incidência de miocardite entre vacinados e reforçaram os benefícios da imunização contra a Covid-19.
Em sua postagem, Reis Junior objetiva desmentir um post do Ministério da Saúde que traz como referência um estudo publicado na revista científica Circulation em outubro de 2022. Segundo a pesquisa, após análise de quase 43 milhões de pessoas na Inglaterra, concluiu-se que o risco de miocardite em indivíduos não vacinados após a infecção por Covid foi 11 vezes maior em comparação com pessoas que desenvolveram miocardite após receberem a dose da vacina.
O texto explica também que o risco de miocardite relacionada à infecção pelo vírus Sars-CoV-2 foi reduzido pela metade entre as pessoas infectadas após a vacinação. 
Artigo publicado na Frontiers in Cardiovascular Medicine, em agosto de 2022, a partir de uma revisão sistemática e meta-análise, também reforça o entendimento do Ministério da Saúde ao apontar que o risco de miocardite é sete vezes maior em pessoas que foram infectadas com o vírus da Covid-19 do que naquelas que receberam a vacina. 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os casos de miocardite são raros e incentiva a vacinação. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos (CDC) também recomenda que todas as pessoas com 6 meses ou mais recebam a vacina. 
Vale ressaltar que, desde 2021, a miocardite passou a integrar a lista dos possíveis efeitos adversos nas bulas das vacinas de RNA mensageiro contra a Covid. 
O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explicam que a miocardite é uma reação adversa rara, tendo sidos notificados 0,07 casos a cada 100 mil doses. "Ainda assim, após extensas investigações, não há nenhum óbito por miocardite com relação causal confirmada com vacinas Covid-19". 

O que dizem os artigos

A publicação intitulada "Myocarditis, Pericarditis and Cardiomyopathy After Covid-19 Vaccination", publicada em julho de 2021 na Heart, Lung and Circulation, explica que as infecções virais, como a Covid, são uma causa comum de miocardite aguda. E que, a partir dos dados divulgados até então, ainda nos meses iniciais das campanhas de vacinação, a incidência era muito baixa nos casos pós-vacina. "Os benefícios da vacinação contra a Covid-19 superam os riscos em todas as populações, incluindo o risco raro de miocardite, para todas as faixas etárias recomendadas", diz trecho do artigo.
O artigo "Myocarditis and Pericarditis After Vaccination for Covid-19", publicado no Journal of the American Medical Association (Jama), em agosto de 2021, teve como objetivo revisar os registros clínicos dos vacinados para identificar casos de miocardite ou pericardite pós-vacinal. Os dados foram coletados de 40 hospitais em diferentes regiões dos Estados Unidos. O texto avalia que a miocardite se desenvolveu em pacientes mais jovens, principalmente após a segunda vacinação. A pericardite afetou pacientes mais velhos, após a primeira ou segunda dose. Nenhuma morte foi registrada.
O texto "Diagnosis and Treatment of Acute Myocarditis: A Review", de abril de 2023, publicado no Jama, traz um panorama geral sobre miocardite. A publicação explica que suas causas mais comuns são vírus (como influenza e Covid), doenças autoimunes sistêmicas e medicamentos. A publicação traz ainda como um dos possíveis fatores as vacinas da varíola e da Covid-19 — sem, entretanto, fazer qualquer comparação sobre a incidência de casos entre vacinados e não vacinados. 
Em "Risks of myocarditis, pericarditis, and cardiac arrhythmias associated with Covid-19 vaccination or SARS-CoV-2 infection", publicado em dezembro de 2021 na Nature Medicine, o objetivo foi quantificar o risco de vários eventos adversos cardíacos raros associados a vacinas contra a Covid, bem como à infecção pelo vírus Sars-CoV-2. O texto explica que a aplicação do imunizante em adultos foi associada a um pequeno aumento no risco de miocardite dentro de uma semana após a primeira e a segunda doses da vacina. "Por outro lado, a infecção por Sars-CoV-2 foi associada a um aumento substancial no risco de hospitalização ou morte por miocardite, pericardite e arritmia cardíaca", diz. 
A publicação "Circulating Spike Protein Detected in Post-Covid-19 mRNA Vaccine Myocarditis", de janeiro de 2023 na Circulation, teve como objetivo fazer uma análise a partir da coleta de sangue de 16 pacientes que foram hospitalizados nos Estados Unidos por miocardite após a vacinação contra Covid. Entre os resultados, a pesquisa informa que as respostas imunes induzidas pela vacina de RNA mensageiro não diferiram entre indivíduos que desenvolveram miocardite e indivíduos que não desenvolveram. "Embora estes resultados possam fornecer informações sobre o imunofenótipo da miocardite relacionada com a vacina, não alteram a relação risco-benefício, favorecendo fortemente a vacinação para proteger contra complicações graves relacionadas com a Covid", diz o texto.
O artigo "Covid-19, Myocarditis and Pericarditis", publicado na Circulation Research, em maio de 2023, é uma revisão que afirma que casos de miocardite e pericardite aumentaram cerca de 15 vezes nos Estados Unidos em comparação com os níveis pré-Covid. O texto explica que, em adultos, as doenças ocorrem predominantemente em homens com menos de 50 anos, independentemente da causa, com morte súbita por miocardite ocorrendo principalmente em homens jovens com menos de 30 anos. A pesquisa, contudo, ressalta que as condições continuam sendo raras e aponta tanto a doença quanto a imunização como possíveis responsáveis pelo aumento, sem dizer qual delas contribuiu mais ou menos para isso.
Por último, "Myocarditis following COVID-19 vaccination: incidence, mechanisms, and clinical considerations", publicado em abril de 2022 na Expert Review of Cardiovascular Therapy, afirma que a miocardite associada à vacina é rara, mas bem descrita em certos grupos de risco. "Embora a conscientização sobre a miocardite associada à vacina deva levar a uma consideração cuidadosa ao vacinar pacientes com histórico de miocardite ou pericardite, ela não deve atrasar os programas de vacinação entre a população em geral, na qual os benefícios da vacina superam fortemente os riscos", reforça. 

Outro lado

O médico Dermeval Reis Junior, em sua conta no Instagram, publicou um outro vídeo afirmando que uma parte dos artigos apresentados no vídeo anterior reforça que a possibilidade de ocorrer casos de miocardite por causa da vacina é remota. "Essas revistas sempre vão amenizar a situação", argumentou.
A Lupa entrou em contato com Reis Junior por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

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Gabriela Soares
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