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Fakes sobre cloroquina e ivermectina ainda alimentam grupos bolsonaristas no 'zap'
22.01.2024 - 08h00
João Pessoa - PB
Mensagens enganosas afirmando que remédios como ivermectina e cloroquina curam a Covid-19 continuam circulando em grupos bolsonaristas do WhatsApp, quase quatro anos após o início da pandemia — apesar de diversos estudos científicos negarem categoricamente qualquer eficácia desses medicamentos. Muitos desses conteúdos reforçam a tese de que a vacina é "experimental", prometendo receitas falsas para “reverter” o efeito dos imunizantes.
Levantamento feito pela Lupa na plataforma da Palver mostra que, entre 17 de dezembro de 2023 a 16 de janeiro deste ano, mensagens falsas como a de que a ivermectina evita os danos provocados pelas vacinas de RNA mensageiro (mRNA) foram compartilhadas em ao menos 170 grupos do WhatsApp, alcançando quase 45 mil usuários. 
Os conteúdos enganosos disseminados nesses grupos seguem com a mesma narrativa desde o início da pandemia, a exemplo de mensagens que reforçam que "milhões foram salvos pelos tratamentos off-label não só pela hidroxicloroquina mas também ivermectina, vitamina D, C, Zinco". Entretanto, agora a estratégia é reforçar nos textos que esses medicamentos, "além da eficácia comprovada para Covid" — o que é falso —, são uma alternativa para aqueles que não tomaram a vacina ou para quem quer "limpar" o corpo de possíveis toxinas deixadas pelo imunizante, como uma espécie de detox.
"Medicamentos como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício para o tratamento da Covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença”
– Roberto Canquerini, conselheiro federal de Farmácia pelo Rio Grande do Sul

Detox para vacinas

Dentre as mensagens falsas compartilhadas nos grupos bolsonaristas, uma delas é uma corrente que traz uma receita de detox com ivermectina para aqueles que tomaram “mais de uma dose” da vacina da Covid-19. O conteúdo — desmentido pela Lupa em abril de 2023 — traz uma série de absurdos como a de que a ivermectina evitaria os danos provocados pelas vacinas de RNA mensageiro (ou mRNA) e a de que o fármaco bloquearia a entrada da proteína Spike para dentro das células. "A ivermectina serve para a prevenção e para o tratamento do coronavírus, de forma surpreendente. Eficácia não comprovada não é da ivermectina, e sim das vacinas", reforça o texto.
Contudo, as vacinas de RNA mensageiro que “ensinam” o corpo a produzir a proteína Spike, como a da Pfizer, por exemplo, não as mantêm no organismo para sempre. Elas estimulam o organismo a criar anticorpos para defesa em caso de infecção pelo vírus real e, depois de algumas semanas, as proteínas desaparecem.
O farmacêutico José Roberto Santin, presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTOX), explica que, ao contrário do esperado “efeito detox”, as receitas milagrosas podem, sim, causar intoxicações. “A maioria dos compostos presentes nas receitas detox apresentam produtos que podem ser nocivos aos seres humanos, podendo provocar uma série de efeitos indesejáveis. Ou seja, estas receitas perigosas podem provocar quadros de intoxicação para aqueles que as consumirem. Além de serem nocivas, é importante pontuar e esclarecer que essas receitas não interferem nas vacinas para Covid-19", afirma, ao site do Conselho Federal de Farmácia.
O Ministério da Saúde publicou uma nota na terça-feira (16) afirmando que o detox vacinal é "uma pseudociência sem respaldo científico", e que adotar essa abordagem pode resultar em "sérias consequências para a saúde individual e coletiva". 
A ivermectina também é citada em outro texto como eficaz para ”melhorar a imunidade de pacientes cancerosos”. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos informou à agência AP Fact Check que, até o momento, não há qualquer “informação que apoie a afirmação de que a ivermectina é uma ‘cura para o câncer’”. 
Em outra mensagem, um usuário afirma que ele e a família não tomaram a vacina da Covid-19, estimulando outros a seguirem um suposto “protocolo” do médico Roberto Zeballos. "Comigo, com os meus filhos e as minhas ex funcionou muito bem, não tomamos as vacinas e estamos na área, a minha segunda ex tomou ivermectina quando teve a Peste Chinesa e melhorou rápido, então para mim é válido, segui os protocolos do Dr Zeballos e funcionou muito bem". Zeballos é criticado no meio acadêmico por suas afirmações falsas contra a vacina da Covid-19 e pela defesa de tratamentos sem eficácia. A Lupa já desmentiu boatos relacionados a posts disseminados pelo médico.

Fakes sobre cloroquina 

Uma das mensagens compartilhadas nos grupos do WhatsApp afirma que a Sociedade Europeia de Cardiologia emitiu uma nota afirmando que a cloroquina foi usada no controle de arritmia cardíaca. Entretanto, a informação está sendo compartilhada de forma distorcida.
Um artigo publicado em dezembro de 2020 na revista EP Europace, da Sociedade Europeia de Cardiologia, explica que não se verificou alteração significativa do estado cardíaco nos pacientes tratados precocemente com a hidroxicloroquina — e não que o medicamento foi usado para controlar casos de arritmia. Contudo, o estudo também faz um alerta e afirma que "é digno de nota que atenção especial deve ser dada à identificação de pacientes que sofrem de síndromes de arritmias congênitas, para as quais a hidroxicloroquina pode representar um importante gatilho arrítmico", reforça. 
A Sociedade Europeia de Cardiologia publicou uma nota em seu site reafirmando que o estudo sobre os efeitos da hidroxicloroquina não foi concebido para testar a eficácia do medicamento para Covid-19, "mas apenas para avaliar a segurança em relação às alterações do eletrocardiograma (ECG) e do ritmo cardíaco". "Neste estudo, o tratamento de curto prazo com hidroxicloroquina não foi associado a distúrbios graves do ritmo cardíaco em pacientes com Covid-19 sob vigilância adequada [...]. O estudo não fornece nenhuma evidência de que a hidroxicloroquina contribuirá para a cura da Covid-19", disse.
A hidroxicloroquina voltou aos holofotes após um estudo publicado em janeiro deste ano na Biomedicine & Pharmacotherapy estimar que o uso do fármaco para tratar pacientes hospitalizados com Covid-19 pode estar relacionado a cerca de 17 mil mortes em seis países. Não há dados sobre o Brasil.

Ataques a vacinas

A narrativa de que medicamentos como ivermectina e cloroquina têm eficácia para a Covid-19 também é usada como pano de fundo para reforçar ataques às vacinas — como a de que "técnicas perversas de lavagem cerebral foram minuciosamente estudadas para que você seja espetado"—  e reafirmar apoio a Jair Bolsonaro (PL), que defendeu o “tratamento precoce” na pandemia. As mensagens questionam, por exemplo, porque o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) investe em vacinas ao invés de investir em um medicamento barato. 
"Por que ele não dá os medicamentos nos postos de saúde? Só quer dar vacina? Já sabemos quais os medicamentos que curam a Covid, um deles é a ivermectina que custa barato. Quando chegar próximo às eleições, a Covid vai embora, por quê? Agora não tem presidente genocida? Tem? Não tem? Só propaganda enganosa", diz um dos trechos da mensagem. 
Conteúdos reforçam ainda que as vacinas seriam “experimentais” e funcionariam como terapia gênica com o objetivo de modificar genes. "Eles sabiam que a ivermectina era a resposta para um surto de coronavírus. Eles fizeram a pesquisa com antecedência. Depois esconderam-na do público em favor de confinamentos, máscaras e terapias genéticas", diz outro trecho. 
A Lupa já desmentiu boatos como esse. É importante ressaltar que os imunizantes foram testados em ensaios clínicos que envolveram dezenas de milhares de voluntários, cumpriram protocolos internacionais e receberam registro definitivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serem aplicados na população. 
Vacinas de RNA não alteram o código genético de células humanas. Elas introduzem uma sequência mRNA que é codificada para um antígeno específico — substância estranha ao organismo que desencadeia a produção de anticorpos. Uma vez produzido dentro do corpo, o antígeno é reconhecido pelo sistema imunológico, preparando-o para combater o vírus. Ou seja, o chamado RNA mensageiro interage com as células humanas e permite que elas produzam proteínas específicas de um patógeno — que passam a ser reconhecidas no corpo. Não há interação entre o mRNA do vírus e o material genético do núcleo das células humanas.

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Francisco Amorim
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