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Lupa
No Roda Viva, Haddad exagera sobre energia limpa e erra sobre reservas cambiais
24.01.2024 - 15h39
Florianópolis - SC
Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista no dia 22 de janeiro no Roda Viva, da TV Cultura - Imagem: reprodução
Em entrevista na segunda-feira (22) ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, falou dos planos de cortar gastos para atingir a meta fiscal e comentou as negociações entre o governo e o Congresso Nacional sobre alguns temas, como a reoneração da folha de pagamentos.
Haddad também fez comparações entre os preços de combustíveis, como a gasolina, nos governos de Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas não detalhou o período a que se referia para dizer que os valores caíram. Ele exagerou dados sobre a matriz energética brasileira e errou a quantidade de reservas internacionais do país.
A Lupa checou algumas das declarações do ministro. Veja, a seguir, o resultado da apuração: 
“Já a matriz energética, que considera tudo, é 50% limpa”
– Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 22 de janeiro de 2024.
Exagerado
O balanço mais recente da matriz energética brasileira (página 19), publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em 2023 com base no ano 2022, indicou que a produção total de energia renovável no país representou 40,5% — e não 50%, como afirmou Haddad.  
Em nota, a assessoria de imprensa do ministério da Fazenda argumentou que o dado citado pelo ministro foi o de Oferta Interna de Energia (também na página 19 do Balanço Energético Nacional 2023), “que soma à produção de energia primária a oferta de energia importada pelo Brasil, onde se destaca a energia produzida pela usina binacional de Itaipu que seria destinada ao Paraguai, mas é ‘importada’ pelo Brasil”.
Portanto, segundo a assessoria do ministro, o total de energia renovável representaria 47,4%, se considerar a oferta interna de energia. Haddad, no entanto, não especificou durante a entrevista ao Roda Viva que se referia à oferta interna.
“A gasolina (...) está mais barata do que no governo do Bolsonaro”
– Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 22 de janeiro de 2024.
Falta contexto
Como Haddad não citou um período específico de comparação, não é possível afirmar que a gasolina ficou mais barata no primeiro ano da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao cobrado durante os quatro anos do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entre 2019 e 2022, houve momentos em que o preço da gasolina comum foi menor, maior e similar a 2023, se corrigida a inflação.
O ministro não contextualiza que o preço médio dos combustíveis no Brasil é atualizado semanalmente e passa por oscilações. Além disso, não pontuou que houve grandes variações no valor durante o governo anterior — quando o país chegou a ter o menor e o maior preço em 21 anos.
Painel dinâmico dos preços (valores nominais, sem correção da inflação) de revenda e distribuição de combustíveis mostra oscilação entre 2019 e 2022 - Imagem: ANP
Em 2023, na gestão Lula, a média nacional do preço do litro da gasolina comum variou entre R$ 5,05 (janeiro) e R$ 5,83 (setembro), segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Em dezembro, último mês disponível, o valor médio era de R$ 5,60.
Já entre 2019 e 2022, na gestão Bolsonaro, o preço médio do litro da gasolina comum variou entre R$ 4,84 (em maio de 2020) e R$ 7,76 (em maio de 2023), considerando a correção da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
A Lupa fez um levantamento do preço médio mensal da gasolina entre 2019 e 2023 para identificar os valores mais altos e mais baixos de revenda nesse período. Em 2019, por exemplo, o preço médio mais baixo foi em fevereiro: R$ 4,19 – o equivalente a R$ 5,55 em valores corrigidos pelo IPCA. O maior valor registrado no mesmo ano foi em maio: R$ 4,55 (ou R$ 5,92, se corrigida a inflação).
Em 2020, o preço mais alto foi registrado em janeiro, R$ 4,57 (ou R$ 5,82, em valor corrigido). Entretanto, com o início da pandemia da Covid-19 e a consequente queda da demanda por combustível, maio registrou o menor valor daquele ano: R$ 3,81 (ou R$ 4,84 com correção da inflação).
Em 2021, a oscilação cresceu: variou de R$ 4,62 em janeiro (R$ 5,63 em valores corrigidos) e subiu para R$ 6,74 em novembro (R$ 7,59, com correção da inflação).
Já em 2022, último ano de Bolsonaro na Presidência, foi registrada a maior oscilação: o litro chegou a custar R$ 7,28 nas bombas em maio (R$ 7,73 se corrigido pelo IPCA) e caiu para R$ 4,89 em outubro (R$ 5,20, se corrigida a inflação).
Variação do preço de revenda da gasolina entre 2019 e 2023. Valores nominais e corrigidos pelo IPCA
Vale pontuar que a queda acentuada do valor em junho de 2022 coincidiu com um pacote de medidas para baixar o preço dos combustíveis anunciado por Bolsonaro quatro meses antes das eleições presidenciais — o pacote foi apelidado de “lista de bondades eleitorais”. 
Portanto, considerando a afirmação feita por Haddad no Roda Viva, não é possível afirmar que o preço da gasolina está mais baixo no governo Lula em relação ao governo Bolsonaro sem especificar um período de comparação – o que não foi feito pelo ministro da Fazenda em sua fala. Por isso, a Lupa usou a etiqueta “Falta contexto”.
“O PIS/Cofins sobre combustível fóssil voltou a ser cobrado”
– Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 22 de janeiro de 2024.
Verdadeiro
Desde julho de 2023, os tributos PIS e Cofins voltaram a incidir sobre o preço dos combustíveis. A partir de março de 2021, no terceiro ano do mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro, as alíquotas de cobrança de impostos federais do gás de cozinha e o PIS/Cofins do diesel foram zeradas. Essa medida permaneceu válida até o fim do governo do presidente, que propunha manter zerados esses impostos caso fosse reeleito.
“Beiramos os US$ 400 bilhões de reservas cambiais.”
– Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 22 de janeiro de 2024.
Falso
De acordo com o Banco Central, as reservas internacionais (ou reservas cambiais) do Brasil fecharam em US$ 355 bilhões — e não US$ 400 bilhões — em 2023, primeiro ano do governo Lula 3. O valor citado por Haddad é 12,7% maior e, portanto, foi classificado como falso.
Fonte: Banco Central
Segundo a série histórica disponível na página do Banco Central, com dados entre 2014 e 2023, em nenhum momento o Brasil chegou a ter US$ 400 bilhões em reservas cambiais (ativos em moeda estrangeira de um país) nesse período. O patamar recorde foi registrado em junho de 2019, quando essas reservas somaram US$ 388 bilhões.
A assessoria de imprensa do ministério da Fazenda foi procurada pela Lupa, mas não respondeu sobre o assunto até a publicação desta reportagem.
“Dos 80 milhões de carros produzidos no mundo, 30 milhões estão sendo produzidos na China.”
– Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 22 de janeiro de 2024.
Verdadeiro
Em 2023, o mercado de veículos da China bateu recorde ao atingir a marca de 30 milhões de unidades produzidas. O dado foi anunciado pela Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis.
Dados publicados em 2023, referentes ao ano de 2022, indicam que foram produzidos mais de 85 milhões de carros em todo o mundo. A informação é da Statista, plataforma alemã especializada em coleta e visualização de dados e estatísticas.
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Carol Macário
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