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Dois meses e muitas vítimas depois, Meta mantém no ar golpes com IA de Luciano Hang
02.02.2024 - 17h03
João Pessoa - PB
Mesmo após reportagens publicadas na imprensa e denúncias feitas pela Havan à Justiça, a Meta continua permitindo a circulação de posts patrocinados com golpes que usam um vídeo manipulado com auxílio de Inteligência Artificial (IA) do empresário Luciano Hang, proprietário da empresa. Monitoramento feito pela Lupa na biblioteca de anúncios da Meta, nesta sexta-feira (2), mostra que mais de 100 posts similares estavam circulando com o conteúdo falso de que o Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) obrigou a Havan a vender smartphones por valores entre R$ 149,49 e R$ 179,49. Esses post entraram no ar em 31 de janeiro deste ano, mas o golpe faz vítimas, pelo menos, desde dezembro.
A rede de lojas tem adotado ações judiciais contra o Google e a Meta ao menos desde 2022. Inclusive há, segundo a empresa, uma liminar na Justiça desde novembro que ordena a Meta a tomar providências e bloquear conteúdos que usam como pano de fundo a Havan. "Temos uma ação em que mais de 580 links são mencionados e as redes da Meta e Google são demandadas. É um trabalho diário e de certa forma difícil de combater, porque denunciamos e derrubamos um, surgem outros dez", afirma o coordenador do setor de ouvidoria da Havan, Fábio Roberto de Souza. 
No início de dezembro de 2023, a Lupa já havia desmentido essa fraude. Segundo o post, o Procon estaria obrigando a Havan a vender smartphones de última geração com um grande desconto como punição por veicular um anúncio de forma equivocada.
Desde então, inúmeras pessoas têm caído no golpe. Souza afirmou à reportagem que, por causa desse problema, diversos Procons pelo país estão abrindo procedimentos contra a empresa, exigindo esclarecimentos. "O triste é que os consumidores estão sendo vítimas e nós também". 
A Lupa questionou a Meta sobre o processo judicial da Havan e pediu informações sobre o número de posts retirados da plataforma com links de golpes envolvendo a varejista, mas não obteve resposta. Em nota, a empresa enviou apenas uma resposta padrão informando que atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas e recomendou que os usuários denunciem quaisquer conteúdos que acreditem violar seus termos de uso. Apesar do retorno protocolar da Meta, o conteúdo em questão que engana e explora terceiros e já foi denunciado justamente por violar os termos de uso da empresa, continua circulando, ou seja, permitido pela plataforma.

Golpes são patrocinados por perfis fakes

Os perfis que patrocinam esses golpes têm tática similar. São contas criadas no Facebook há menos de um mês, com um ou dois seguidores, usam uma foto do perfil gerada por IA e se descrevem como perfis com dicas de moda e de beleza. Algumas dessas contas disponibilizam número de telefone e e-mail para contato, entretanto inexistentes.
É o caso do perfil "Dicas da Ana", criado em 23 de janeiro de 2024. Até o fim da manhã desta sexta-feira (2), a conta estava com 60 posts patrocinados ativos na biblioteca de anúncios da Meta aplicando o golpe com o vídeo de Luciano Hang. Em seu perfil, a conta se descreve como um espaço para "dar dicas sobre as coisas do dia, onde comprar as melhores coisas".
"Dona Diva Dicas" é outro perfil que está patrocinando esse golpe — com ao menos 36 conteúdos pagos ativos. Em sua conta não há qualquer informação de contato.
Há também perfis que usam layouts de portais de notícias para dar mais credibilidade ao anúncio. É o caso do Portal NW Notícias, com 21 posts patrocinados. O perfil não disponibiliza, por exemplo, qual o site da organização ou outros detalhes que possam provar que a conta seja verdadeira.
A biblioteca de anúncios da Meta não disponibiliza mais detalhes sobre os criadores desses perfis, como país de origem ou organizações e pessoas que gerenciam essas redes falsas. 

Como funciona o golpe

Ao clicar no link que aparece no post patrocinado com a montagem de Hang, o usuário é levado para uma página com a logo do portal de notícias G1 que alega que o Procon obrigou a Havan a vender smartphones por R$ 149,49. Há também um vídeo com o apresentador César Tralli, do Jornal Hoje, da TV Globo, em que ele supostamente fala sobre o assunto — o áudio também é manipulado por IA.
Ao final da página, há um link de um site de vendas que possui o logo da Havan oferecendo o produto, onde são solicitadas informações pessoais como nome, CPF e cartão de crédito. Se o usuário enviar essas informações, poderá ter o cartão usado para compras indevidas pelos criminosos.
Embora a sincronização labial não seja totalmente perfeita, conteúdos como esse mostram o potencial para aplicação de golpes. A Lupa desmentiu recentemente um vídeo no qual Drauzio Varella recomendava uma dieta à base de ovos. Na suposta gravação, o médico fazia um convite para que pessoas participassem de um grupo de WhatsApp para receber gratuitamente o cardápio. O médico nunca gravou nenhum vídeo similar. Tratava-se de uma gravação que usou inteligência artificial para simular voz e imagem e enganar usuários da internet para vender produtos.
O apresentador da TV Globo Luciano Huck também foi peça de outro post fraudulento. No vídeo, ele anunciava que hoje (sem especificar a data) era o último dia para conseguir resgatar o dinheiro do programa Saque Esquecido, supostamente associado ao governo federal. O registro foi manipulado para incluir um áudio que sequer foi dito pelo apresentador. A assessoria de comunicação da Globo confirmou, por nota, a informação. O registro segue com um link que aplica golpes para roubar dados pessoais do usuário. 

Não caia em golpes

A Havan esclarece que só vende seus produtos por meio do site da loja, que é havan.com.br. "Então, se você vir por aí na internet qualquer coisa diferente disso, saiba que não somos nós", diz a empresa, em comunicado publicado em seu site. 
O Procon de São Paulo, citado em alguns dos posts, afirmou em nota que não intimou a empresa Havan para cumprir qualquer obrigação e, portanto, também não publicou nenhuma notícia em seu portal sobre este assunto. Ainda segundo o Procon, a recomendação é que toda informação seja confirmada diretamente no www.procon.sp.gov.br e não apenas por imagens e vídeos em posts.
O Banco Central reforça em seu site que é importante não clicar em sites que peçam dados pessoais e bancários prometendo resgates ou saques de dinheiro. Além disso, o usuário deve ficar atento aos certificados de segurança e só deve dar informações pessoais como endereço, CPF e dados de cartão de crédito quando tiver certeza de que a empresa existe e de que o site é confiável.

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