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Lupa
Tentativa de golpe incluiu núcleo de desinformação comandado por aliados de Bolsonaro, diz PF
08.02.2024 - 15h56
Rio de Janeiro - RJ
Um núcleo organizado para espalhar desinformação, liderado por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), visava atacar o sistema eleitoral com o objetivo de preparar um golpe de Estado. Essa é a constatação das investigações da Polícia Federal (PF), que realizou prisões, buscas e apreensões nesta quinta-feira (8). 
Segundo a PF, a finalidade desse núcleo era produzir e disseminar conteúdos falsos que colocassem em xeque o sistema eletrônico de votação e as eleições presidenciais de 2022, com o propósito de estimular bolsonaristas a permanecerem em frente aos quartéis das Forças Armadas e "criar o ambiente propício para o golpe de Estado".
Ainda segundo as investigações, a organização criminosa agia nos moldes do intitulado “gabinete do ódio” — grupo de assessores do ex-presidente que atuava sob ordens do Palácio do Planalto para espalhar conteúdos falsos e discurso de ódio contra opositores.
Entre os membros atuantes desse núcleo de desinformação estavam pessoas próximas a Bolsonaro, como ex-assessores e oficiais do Exército. São eles: o ajudante de ordens Mauro Cid, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, o militar Ângelo Martins Denicoli, o influenciador argentino Fernando Cerimedo, o empresário Éder Lidsay Magalhães Balbino, o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, o coronel do Exército Guilherme Marques Almeida, o major Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros e o ex-assessor de Bolsonaro Tércio Amaud Tomaz.
Mauro Cid, durante CPMI do 8 de janeiro. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Os conteúdos falsos produzidos eram disseminados em múltiplos canais com foco em supostas irregularidades no código-fonte das urnas eletrônicas e registros de votos após o horário de encerramento da votação.  
A PF também indica a participação direta de Bolsonaro nesse esquema. O inquérito cita, por exemplo, a live promovida pelo ex-presidente em julho de 2021 para denunciar supostas fraudes cometidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na ocasião, Bolsonaro insistiu na existência de um padrão nas eleições de 2014, que não aparece nos dados do TSE, e voltou a falar de vídeos manipulados que mostravam as urnas completando automaticamente o número 13, quando o número "1" era digitado, no pleito de 2018.

Envolvimento da alta cúpula do governo e militares

O relatório da PF cita o envolvimento de ex-ministros da gestão Bolsonaro e militares na disseminação de informações falsas. Segundo o documento, em 5 de julho de 2022, o ex-presidente convocou uma reunião com a alta cúpula de seu governo com o objetivo de “coagir os ministros e todos os presentes para que aderissem à ilícita desinformação” (página 61) apresentada pelo ex-mandatário na ocasião.
Esse encontro foi uma peça-chave na investigação da PF e teve a participação dos então ministros Anderson Torres (Justiça), Augusto Heleno (GSI), Paulo Sérgio Nogueira (Defesa) e Braga Netto (Casa Civil). 
De acordo com a investigação, o ex-presidente exigiu que os ministros “deveriam promover e replicar, em cada uma de suas respectivas áreas, todas as desinformações e notícias fraudulentas quanto à lisura do sistema de votação, com uso da estrutura do Estado brasileiro para fins ilícitos e dissociados do interesse público” (página 62)
O relatório transcreve algumas falas de Bolsonaro — que nessa mesma ocasião informou aos ministros que promoveria uma reunião com embaixadores para “mostrar o que estava acontecendo”. Essa reunião de fato ocorreu: trata-se do encontro de 18 de julho de 2022 no qual o ex-presidente repetiu mentiras sobre o sistema de votação brasileiro, com transmissão da TV Brasil.
Trecho de live de Bolsonaro com embaixadores
Transcrições de falas de ex-ministros como Anderson Torres e Paulo Sérgio Nogueira durante a reunião da alta cúpula indicam, segundo a PF, que eles aderiram e participaram da prática de propagação de desinformação. “O ministro [Anderson Torres] reitera a narrativa [de Bolsonaro] [...], ressaltando a necessidade dos presentes em propagar as informações falsas quanto a fraudes e vulnerabilidades no sistema eletrônico de votação”, diz a polícia. 
Um exemplo é uma fala do então ministro da Defesa que, de acordo com a transcrição, tratou o TSE como um inimigo. "O que eu sinto nesse momento é apenas na linha de contato com o inimigo. [...] Eu vejo as Forças Armadas e o ministério da Defesa nessa linha de contato. Nós temos que intensificar e ajudar nesse sentido pra que a gente não fique sozinhos no processo" (página 67).
Transcrições de declarações do então chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, indicam que o general evidenciou a necessidade de os órgãos de Estado vinculados ao governo federal atuarem “para assegurar a vitória do então presidente Jair Bolsonaro” (página 70).
O que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições. [...] E vai chegar a um ponto que nós não vamos poder mais falar. Nós vamos ter que agir. Agir contra determinadas instituições e contra determinadas pessoas. Isso pra mim é muito claro
– Transcrição de fala do general Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo Bolsonaro, em reunião em 5 de julho de 2022
O relatório da PF ressalta ainda que a descrição do encontro de 5 de julho de 2022 revela “o arranjo de dinâmica golpista, no âmbito da alta cúpula do governo, manifestando-se todos os investigados que dela tomaram parte no sentido de validar e amplificar a massiva desinformação e as narrativas fraudulentas sobre as eleições e a justiça eleitoral, entre outras, inclusive lançadas e reiteradas contra o então possível candidato Luiz Inácio Lula da Silva, contra o TSE, seus ministros e contra ministros do STF.”
Ainda sobre o envolvimento de aliados de Bolsonaro, a PF indica que militares, como o coronel Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros, o general Mauro Cid, o coronel Bernardo Romão Corrêa Netto e o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, entre outros, potencializaram o “processo de propagação de desinformação”. 
Reproduções de diálogos entre esses militares via WhatsApp mostram, por exemplo, Hélio Ferreira Lima conversando com Mauro Cid sobre a necessidade de quebra institucional porque não tinham sido identificadas vulnerabilidades do sistema eleitoral.
Reprodução de algumas trocas de mensagens entre militares via WhatsApp

Uso de milícias digitais e influenciadores

Na prática, o núcleo adotava diversas estratégias para alimentar as redes e bolsonaristas no intuito de aplicar o golpe de Estado. A dinâmica incluía ataques a instituições e a ministros do TSE e STF, tendo como um dos principais alvos o ministro Alexandre de Moraes. Os mecanismos de influência digital na profusão de ataques à Justiça Eleitoral eram mediante uso de milícias digitais e de influenciadores, a partir da disseminação de notícias falsas e de "estudos" quanto à falta de lisura das eleições.
A estratégia era a seguinte: diferentes canais e influenciadores apoiadores do ex-presidente, "com forte penetração em parcela da população ligada à direita do espectro político", recebiam “vazamentos” de informações falsas feitos por integrantes do governo para disseminar ataques.
Esse método foi intensificado após o segundo turno das eleições de 2022 para alimentar a tese do golpe, de acordo com a investigação. Diálogos mostrados pelo inquérito sinalizavam, segundo a PF, "medidas radicais [...] adotadas a fim de reverter o resultado do pleito" (página 90). A tática era investir em militares não alinhados com o objetivo de convencê-los a participar das iniciativas do golpe. 
A PF cita, por exemplo, a divulgação de uma live do influenciador argentino Fernando Cerimedo, apoiador de Jair Bolsonaro, em que ele fazia acusações fraudulentas sobre uma suposta constatação de disparidades entre a distribuição de votos nas urnas eletrônicas mais novas e mais antigas “que implicariam anomalia favorável ao candidato de número 13 nas urnas fabricadas antes do ano de 2020" (página 81). A Lupa desmentiu esse boato em novembro de 2022.
Ao mostrar o relatório que supostamente comprovaria anomalias durante o pleito, Cerimedo apenas informou que se tratava de um relatório privado que chegou às suas mãos, mas não detalhou a fonte. Esse documento, no entanto, era um material apócrifo que já havia sido amplamente desmentido. Antes de o canal do influenciador ser suspenso no Brasil, o vídeo de Cerimedo foi compartilhado por apoiadores do ex-presidente, incluindo parlamentares, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). 

Comunicador da Jovem Pan também disseminou fakes

Além de militares e ex-ministros, a Polícia Federal sinalizou que o empresário Paulo Renato de Oliveira Figueiredo, ex-comunicador da Jovem Pan, também atuou na “propagação de desinformação golpista e antidemocrática”. 
Segundo a investigação, Figueiredo teria recebido das mãos de militares uma carta destinada ao então comandante do Exército. Esse documento fazia críticas ao Poder Judiciário e teria sido elaborado para pressionar militares que não aderissem aos planos golpistas. 
Figueiredo então publicizou o conteúdo do documento tanto em um post no X (antigo Twitter) em 29 de novembro de 2022 quanto em matéria no site da emissora, mencionando o “clima” entre militares da ativa.
Reprodução de post e chamada de matéria de Paulo Figueiredo na Jovem Pan em novembro de 2022
Procurada pela Lupa, a emissora não se pronunciou sobre o assunto até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado se houver resposta

Narrativas falsas começaram a ser propagadas em 2019

A investigação da PF concluiu que, embora a disseminação de conteúdos falsos tenha se acentuado em 2022 — ano eleitoral —, desde 2019 já eram propagadas narrativas desinformativas que aventavam, sem provas, uma suposta vulnerabilidade e risco de fraude no sistema de votação brasileiro. 
A conclusão dialoga com levantamento feito pela Lupa sobre os ataques de Jair Bolsonaro às urnas eletrônicas. Desde a primeira campanha ao Palácio do Planalto, em 2018, o político fez ao menos 50 acusações contra as urnas, o sistema eleitoral e o Supremo Tribunal Federal (STF)
Segundo a linha do tempo das declarações públicas do ex-presidente ao sistema de votação, em 29 de setembro de 2018, por exemplo, dias antes do pleito que o elegeu presidente da República, o então candidato afirmou em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, que "um sistema eleitoral em que já tínhamos acertado uma maneira de auditá-lo, que é o voto impresso, lamentavelmente o Supremo Tribunal Federal derrubou" — o que é falso, pois o sistema atual é auditável.
No ano seguinte, em novembro de 2019, o então presidente publicou no X que "denúncias de fraudes nas eleições” culminaram na renúncia do então presidente boliviano Evo Morales. “A lição que fica para nós é a necessidade, em nome da democracia e transparência, [da] contagem de votos que possam ser auditados. O VOTO IMPRESSO é sinal de clareza para o Brasil!" 
Ao longo dos quatro anos em que atuou como chefe do Executivo, o ex-capitão do Exército fez dezenas de insinuações e acusações diretas contra as urnas. Em julho de 2023, um levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), indicou que Bolsonaro fez 183 afirmações falsas sobre as urnas eletrônicas entre 2019 e 2022 — uma a cada oito dias de governo.
A Lupa mostrou, em reportagem publicada em janeiro deste ano, que a narrativa falsa sobre fraude nas urnas eletrônicas — que insuflou os atos de 8 de janeiro — continuou ganhando fôlego nas redes ao longo de 2023, principalmente por causa dos desdobramentos dos ataques golpistas. 

Desdobramentos da operação

A operação deflagrada pela PF nesta quinta-feira (8) cumpriu 33 mandados de busca e apreensão, quatro mandados de prisão preventiva e 48 medidas cautelares. O inquérito investiga a atuação de núcleos de apoiadores do ex-presidente na "tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado democrático de direito". 
Jair Bolsonaro foi alvo de busca e apreensão. Os agentes da PF foram até a casa do ex-presidente em Angra dos Reis (RJ) para recolher seu passaporte. O documento, contudo, estava no escritório de Bolsonaro na sede do PL, em Brasília, e já foi entregue. De acordo com as investigações, o ex-presidente ajudou a redigir e editar a minuta do golpe — o documento tratava de uma proposta de decreto para que Bolsonaro instaurasse um estado de defesa no TSE e, com isso, reverter o resultado da eleição em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu vencedor.
Dois ex-assessores de Bolsonaro, o coronel Marcelo Câmara e Filipe Martins, foram presos. A PF também prendeu Rafael Martins de Oliveira, major do Exército. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também foi alvo de busca e apreensão, mas acabou detido por porte ilegal de arma. 
Ao jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro se defendeu das acusações e afirmou que sofre uma "perseguição implacável". "Saí do governo há mais de um ano e sigo sofrendo uma perseguição implacável. Me esqueçam, já tem outro governando o país". 

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