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Dengue: saiba quais são as fakes sobre doença e vacina que estão nas redes
09.02.2024 - 08h00
Florianópolis - SC
Mosquito Aedes aegypti é o transmissor do vírus da dengue - Imagem: Fotos Públicas
O novo surto de dengue no Brasil, que em janeiro de 2024 registrou um número três vezes maior de casos em relação ao mesmo período de 2023, motivou uma onda de desinformação sobre a doença similar às ondas de “fake news” observadas durante a pandemia da Covid-19. 
Embora não seja uma doença nova — nem esse seja o primeiro surto no país —, teorias conspiratórias sobre a origem da dengue grave, falsos tratamentos que prometem a cura em até três dias e meios de prevenção com fármacos sem comprovação científica se espalharam pelas redes sociais. 
Desde que o Ministério da Saúde alertou, no final de janeiro, sobre o cenário epidemiológico da dengue em 2024, a Lupa desmentiu pelo menos cinco fakes sobre a infecção em um período de apenas 10 dias. Em alguns conteúdos, foram feitas associações mentirosas entre a forma mais grave da dengue com as vacinas da Covid-19 — o que não é verdade —, indicando que não existe nenhum surto da doença no Brasil. 
Dados do painel de atualização de casos de arboviroses indicam que, até terça-feira (6), foram registrados 364,8 mil casos prováveis de dengue no ano. Até o momento, 40 mortes pela doença foram confirmadas e 265 estão em investigação. 
Especialistas são unânimes em afirmar que a melhor forma de prevenir a dengue é combatendo o mosquito transmissor do vírus, que se prolifera em água parada. A recomendação de autoridades de saúde é eliminar locais que acumulam água por serem  possíveis criadouros, como vasos de plantas, pneus, caixas d’água, garrafas e cisternas, entre outros. O uso de repelente também é recomendado.
Eliminar focos do mosquito transmissor, como vasos de planta e recipientes que acumulam água, é indicado como prevenção da doença - Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
Reunimos, a seguir, alguns dos conteúdos desinformativos sobre a dengue que já foram desmentidos. Confira:

Não existe tratamento específico contra a dengue

Promessas de cura em até três dias com chás e tratamentos milagrosos estão entre as publicações falsas compartilhadas especialmente via WhatsApp. Entre 1º de janeiro e 7 de fevereiro, ao menos 7,7 mil mensagens sobre a dengue circularam em grandes grupos públicos monitorados pela Palver nessa plataforma — com um alcance de mais de 251 mil pessoas. O levantamento também mostra que esse assunto está em alta nos grupos especialmente a partir de 25 de janeiro.
Monitoramento da Palver de mensagens sobre a dengue em grupos de WhatsApp no Brasil - Imagem: Reprodução/Palver
Entre as publicações que se espalham estão a cura milagrosa da forma grave da dengue com o chá da folha de mamão. Também circulam recomendações de uso do limão taiti, que seria supostamente mais eficaz do que as vacinas da dengue. Há outras dicas similares que mudam apenas o tipo de planta ou substância como resposta contra a doença.
Chás e sucos são recomendados nas redes sociais e plataformas de mensagem como soluções ou formas de prevenção da dengue
Não existe, contudo, um tratamento específico para a dengue e as formas graves da doença. Médicos e especialistas em virologia e infectologia ouvidos pela Lupa explicam que, como não existe uma droga antiviral, o protocolo terapêutico em pessoas infectadas é o manejo clínico, hidratação e tratamento dos sintomas — como febre e dores abdominais, entre outros — com antitérmicos e analgésicos.
No caso da folha de mamão, por exemplo, embora existam estudos sobre o uso da planta com esse objetivo, ainda não há qualquer evidência científica que comprove que o chá ou o extrato da folha dessa planta possa curar a dengue ou prevenir que ela evolua para um quadro de maior gravidade. 
Uma revisão sistemática publicada em 2021 na revista especializada Frontiers in Pharmacology analisou estudos e relatórios científicos envolvendo a folha do mamão como possível tratamento da dengue em três aspectos: atividades antivirais, prevenção da trombocitopenia (número reduzido de plaquetas no sangue que pode levar à hemorragia) e melhoria da imunidade durante a dengue.
Tampouco é possível prevenir a dengue com vinagre de álcool, como sugeriu um vídeo enganoso segundo o qual seria possível matar o Aedes aegypti com essa substância. Como mostrou a Lupa, não há comprovação científica de que o vinagre seja eficaz para eliminar o mosquito.
Segundo o médico infectologista André Siqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, um dos fatores para não se ter chegado, ainda, a um tratamento eficaz deve-se ao fato de a dengue ser uma doença complexa. “São quatro sorotipos diferentes do vírus [DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4]. Sabemos que episódios posteriores de dengue podem levar a uma exacerbação da gravidade. Mas tem uma fase de viremia que é curta, e, portanto, temos uma janela curta para poder agir. Nenhum tratamento viral demonstrou, até hoje, capacidade de reduzir o vírus”, explica.

Receitas caseiras não devem ser confundidas com tratamentos cientificamente comprovados

Embora existam muitos estudos há várias décadas sobre possíveis tratamentos da dengue, ainda não há uma medicação ou intervenção que demonstre efetividade para tratar a doença ou prevenir seu agravamento. O que é consenso na medicina é o manejo clínico, como repouso, hidratação, medição da gravidade e tratamento dos sintomas, entre outros. Nesse sentido, especialistas alertam que receitas caseiras não têm qualquer respaldo científico quanto à sua eficácia.
“Ao seguir uma dica caseira, o indivíduo pode fazer associações a partir de sua experiência ou da experiência de conhecidos que não têm método científico. O fato de uma pessoa tomar determinado chá e não ter nenhuma complicação não é uma garantia de causalidade.”
– André Siqueira, infectologista, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical
Além disso, na epidemiologia existem os chamados fatores confundidores. “Quem costuma consumir chás, por exemplo, tende a ter práticas mais saudáveis de alimentação e isso contribui para uma melhor resposta do organismo a uma infecção”, pontua o infectologista.
Nesse mesmo contexto, o professor Paulo Roehe, titular do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ressalta que o fato de uma receita natural ter dado certo para alguém não significa que será uma solução mágica para todo mundo. 
Por isso, protocolos compartilhados nas redes sociais, como o consumo de própolis,  vitaminas e limão, entre outros, não devem ser confundidos com tratamentos clinicamente testados e com evidências científicas comprovadas.
“Uma alimentação saudável é sempre boa para tudo. O chazinho que não tem comprovação científica pode ajudar na hidratação ou levar algum conforto, mas do ponto de vista científico não tem comprovação de que cura”, afirma. Ele também lembra que a maioria dos casos de dengue não são graves ou fatais. “Grande parte dos casos lembra um resfriado forte”.

Ivermectina não é eficaz contra a dengue

Conteúdos que parecem requentados da época da pandemia da Covid-19 ganharam novas versões em 2024. Entre eles estão as alegações de que a ivermectina, droga usada para tratar sarna e piolho, seria eficaz contra a dengue. Essa informação não procede
Esse antiparasitário não tem nenhuma ação contra o vírus da dengue ou a doença em si. “O que ocorre é que, assim como o que aconteceu com o novo coronavírus, fármacos como a ivermectina apresentaram atividade antiviral em condições laboratoriais, que nós chamamos de in vitro. Mas isso não se aplica à condição em seres humanos, dentro do nosso corpo”, explica o pesquisador José Henrique Maia Campos de Oliveira, professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que atua em estudos com Aedes aegypt. 
O Ministério da Saúde também já desmentiu boatos de que a ivermectina seria eficaz como tratamento ou prevenção da dengue. 

Desinformação sobre a vacina e críticas ao governo

Uma outra onda desinformativa similar à pandemia da Covid-19 tem como alvo a vacina da dengue. O que se observa, no entanto, são dois movimentos: um de teorias conspiratórias sobre os efeitos do imunizante disponível até o momento no Brasil, a Qdenga, e outro que acusa o governo de não entregar doses para a população. Curiosamente, o segundo movimento é alimentado por políticos bolsonaristas que, durante a pandemia, questionavam a segurança das vacinas contra a Covid-19.
Posts no Facebook sobre a dengue com maior engajamento foram publicados por políticos que criticaram a vacina da Covid-19 e que acusam o atual governo de negligenciar a compra de imunizantes contra a dengue - Imagem: CrowdTangle/Reprodução
A vacina da dengue foi aprovada em março de 2023 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com eficácia de 80,2%, a Qdenga, da empresa japonesa Takeda Pharma, começou a ser disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na primeira semana de fevereiro. 
Embora a distribuição das primeiras doses tenha recém-começado no Brasil, publicações falsas alegam que essa vacina seria capaz de alterar o DNA dos vacinados e causaria câncer. Isso é falso.
Como explicado pela Lupa, a Qdenga utiliza a tecnologia de DNA recombinante. Isso significa que genes de proteínas dos sorotipos 1, 3 e 4 do vírus da dengue foram utilizados para modificar geneticamente o sorotipo 2. Dessa forma, com o vírus atenuado e modificado, o objetivo é fornecer proteção para os quatro sorotipos do vírus da dengue. A modificação genética, portanto, é realizada no vírus, e não no DNA humano.
Além de falsamente colocar em xeque a eficácia e segurança do imunizante, publicações alegam que o governo federal teria demorado ou mesmo adiado a compra de doses. Conteúdos similares circularam em julho do ano passado.
Na época, a Takeda ainda não havia enviado documentação para a análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec), órgão que analisa a incorporação de novas tecnologias ao SUS a partir das evidências científicas relacionadas à eficácia, efetividade, segurança e impacto econômico. 
A documentação foi enviada pela empresa em 28 de julho de 2023, dois meses depois da publicação do preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), em 18 de maio de 2023, “seguindo todos os trâmites do processo administrativo estabelecido, dentro dos prazos estimados”. 
Em nota enviada à Lupa, a farmacêutica afirmou que a Conitec acelerou “a decisão de incorporação da Qdenga” e que o Brasil “é o primeiro país no mundo a disponibilizar a vacina da dengue em um sistema público de saúde”.
“A gente já percebe dois caminhos: o negacionismo, que recusa intervenções que a gente sabe que funcionam; e ao mesmo tempo um movimento que critica o governo de não comprar doses suficientes”, observa o infectologista André Siqueira, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. 
Segundo o governo federal, o Ministério da Saúde adquiriu todas as vacinas contra a dengue que foram disponibilizadas pela farmacêutica Takeda Pharma e a “quantidade de doses está limitada à capacidade operacional e logística do fabricante”, informou a pasta. A Takeda confirmou que “o volume ofertado em 2024 para o Ministério da Saúde compreende todas as doses que estavam disponíveis e não comprometidas em outros contratos”.
Também informou que “o lançamento de um novo imunobiológico, como é o caso da Qdenga, exige processos de fabricação longos e complexos, que inclui engenharia genética, com condições de armazenamento e transporte específicas e várias etapas de registro e importação, o que resulta num processo de produção e fornecimento mais complexos e diferenciados com pouca flexibilidade de ajustes em um curto prazo”. Disse ainda que “a empresa está concentrada em atender de forma prioritária ao Ministério da Saúde.
Para José Henrique Maia Campos de Oliveira, da UFSC, a circulação de desinformação sobre a dengue está ligada ao que ele chama de crise científica em todo o mundo, não só no Brasil, mas sobretudo ao lucro. “Muita gente lucra com a desinformação”, resume.
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