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Posts sobre Biden e Trump no Facebook estão menos pop e repletos de fakes
Os Estados Unidos iniciam este ano eleitoral com cerca de 250 milhões de seus 335 milhões de habitantes conectados ao Facebook. São 15 milhões a mais do que em 2020, quando o democrata Joe Biden foi eleito, e pelo menos 30 milhões acima do registrado em 2016, quando o republicano Donald Trump chegou à Casa Branca. 
Análise feita pela Lupa com a Univision, a partir de dados extraídos da plataforma por meio da ferramenta de monitoramento CrowdTangle, mostra que, apesar de o Facebook ter incorporado uma quantidade de novos usuários que corresponde a quase uma cidade do Rio de Janeiro nos últimos quatro anos, Biden e Trump têm engajamento consideravelmente menores em 2024 frente ao registrado em 2020. Um dos ingredientes que segue ativo em ambas as campanhas de lá para cá, entretanto, é a desinformação.
Em janeiro de 2020, os 100 posts citando "Trump" com mais curtidas, comentários, compartilhamentos e reações no Facebook somaram 19 milhões de interações. No mês passado, também tomando em conta os 100 posts mais populares mencionando o ex-presidente, o total de interações não passou de 5 milhões — uma queda de quase 75%.
Biden foi um pouco melhor. Mas nem o fato de ocupar um dos cargos mais importantes do planeta fez com que o atual presidente dos Estados Unidos angariasse uma alta significativa no número de interações nos 100 posts mais populares feitos na rede citando seu nome. Se em janeiro de 2020, foram 3,7 milhões de interações, neste ano, foram 3,9 milhões — um aumento de pouco mais de 5%.
Um mergulho nos sentimentos coletados pelos 100 posts mais populares sobre "Biden" e "Trump" revela outros dados interessantes. As 2,3 milhões de "curtidas" geradas pelas publicações mais populares feitas sobre Biden em janeiro deste ano representam quase o dobro do 1,2 milhão registrado no mesmo período de 2020. No período, o número de interações "amei" subiu de 141 mil para 244 mil. 
Em análise de sentimento semelhante, as publicações mencionando Trump vão no sentido oposto. Em janeiro de 2020, os 100 posts mais populares citando seu nome tiveram 7,5 milhões de "curtidas". No mês passado, o número caiu pela metade considerando as 100 publicações com maior engajamento: 3,2 milhões. O total de "amei" também despencou: de 1,7 milhão, em 2020, para 538 mil, em 2024.
Desinformação nas redes
Em ambos os lados da torcida política, a desinformação é ingrediente perene. Em janeiro de 2020, posts sobre "Trump" divulgavam narrativas críticas à CNN, acusando o canal de televisão de produzir "fake news". Também diziam que, em seu primeiro mandato (2016 a 2020), o republicano havia provado de forma definitiva que "um homem de negócios pode comandar o país melhor do que qualquer outro político" — algo carregado de subjetividade e cuja comprovação exigiria, pelo menos, a análise histórica de todos os presidentes dos EUA. 
"CNN é fake news" / "Trump já provou que um homem de negócios pode administrar esse país melhor do que qualquer outro político jamais o fez"
No mês passado, os fãs de Trump no Facebook compartilhavam narrativas igualmente falsas. A vítima da vez era seu adversário político, Joe Biden. Posts feitos por ativistas republicanos difundiam a ideia de que o mundo está perto da Terceira Guerra Mundial por conta da "invasão" de imigrantes aos Estados Unidos — uma ideia baseada em uma série de vídeos falsos que viralizaram no país em 2023.
Também lamentavam que "comunistas" mal intencionados tivessem se infiltrado em escolas e outras instituições sociais e disseminavam a ideia de que o ex-presidente Trump seria a única solução para tudo isso, já que Biden seria "o pior presidente da história americana". A narrativa de que o comunismo se infiltra nos EUA gera desinformação desde os anos 1950. Veja as imagens a seguir.
"Joe Biden é o pior presidente da história dos Estados Unidos (...)" / "Joe Biden está permitindo que nossas fronteiras sejam inundadas" / "Os extremistas marxistas de esquerda se infiltraram em nossas escolas, universidades, colégios, forças armadas (...)"
Entre os apoiadores de Biden, a desinformação também serve como ferramenta eleitoral — tanto agora quanto em 2020. Se quatro anos atrás os democratas diziam no Facebook que Trump não tinha nenhuma estratégia para lidar com o Irã e que o ataque a drone que resultou na morte do general Qassem Soleimani seria entendido como uma declaração de guerra, no mês passado, dezenas de páginas que apoiam a reeleição de Biden publicaram postagens questionando a capacidade mental de Trump de voltar a ser presidente.
“A chance de conflito com o Irã nunca foi tão alta. Donald Trump tem uma estratégia para o futuro?”
“Um repórter que cobriu Donald Trump por duas décadas soou o alarme sobre seu profundo declínio cognitivo (...)” / “[O apresentador e comentarista político] Joe Scarborough escancarou o óbvio declínio cognitivo de Donald Trump. Disse que a cabeça dele é como ovos mexidos”
Em janeiro deste ano, Trump aparentemente se confundiu ao misturar Biden com o também democrata e ex-presidente Barack Obama. Também falou sobre a republicana Nikki Haley, que disputa com ele as primárias presidenciais de seu partido, como se tratasse da ex-presidente da Câmara de Deputados, a democrata Nancy Pelosi.
Baseado nesses dois episódios, a narrativa sobre um possível declínio das capacidades cognitivas de Trump se espalhou pelo Facebook. Não há, no entanto, nenhuma análise médica ou científica que embase isso. Em 2018, ainda na Casa Branca, Trump passou com sucesso por um teste de cognição desenvolvido no Canadá.

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Nathallia Fonseca
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