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Facebook e Instagram rejeitam denúncias sobre golpe com uso de IA de Hang
16.02.2024 - 08h00
João Pessoa - PB
Para a Meta, o vídeo manipulado com auxílio de Inteligência Artificial (IA) do empresário Luciano Hang, proprietário da Havan, com o objetivo de aplicar golpes não viola os padrões de comunidade em suas redes sociais. Denúncias de posts enganosos feitas por usuários no Facebook e Instagram, que pertencem à empresa, recebem como padrão a resposta de que o conteúdo não será retirado do ar. 
"Usamos uma combinação de tecnologia e analistas humanos para processar denúncias e identificar conteúdo que vai contra nossos Padrões da Comunidade, Neste caso, nós não removemos o conteúdo que você denunciou", diz trecho da mensagem recebida. 
O golpe que a empresa alega não violar as regras da plataforma é aquele em que o Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) supostamente obrigou a Havan a vender smartphones por valores entre R$ 149,49 e R$ 179,49. Ao final da página, há um link de um site de vendas que possui o logo da Havan oferecendo o produto, onde são solicitadas informações pessoais como nome, CPF e cartão de crédito. Se o usuário enviar esses dados, poderá ter o cartão usado para compras indevidas pelos criminosos.
A Lupa recebeu diversos comentários de usuários nas redes sociais denunciando o descaso da Meta na análise de remoção desses conteúdos. Para a designer Tayana Lucena, essa atitude é um 'absurdo'. "Todo dia esse tipo de post chega como patrocinado pra mim, denuncio todos e a Meta responde que não fere as diretrizes. Algo tem que ser feito urgentemente!!!", postou.
O administrador Paulo Lopes também reclamou nas redes sociais que, apesar das denúncias feitas, o padrão de resposta é o mesmo. "Essa ferramenta de denúncia da Meta é um lixo! Quase todos os dias eu denuncio posts de golpes do tigrinho, golpe do pix, postagens e comentários preconceituosos etc e nunca excluem!".
A reportagem da Lupa também fez denúncias de posts patrocinados com o golpe. A resposta foi a mesma: "Neste caso, nós não removemos o conteúdo que você denunciou." Todas as publicações continuavam no ar até a tarde de quinta-feira (15). 
Mensagens compartilhadas nas redes da Lupa por usuários que denunciaram o golpe 
Para a pesquisadora Tatiana Dourado, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), este caso ilustra como padrões de comunidades e padrões de publicidade podem falhar de forma combinada. "Além de se tratar de fraudes financeira e de produtos, que, em tese, são vedadas, chamam ainda mais atenção tanto a facilidade com que contas falsas são usadas para aplicar golpes nas plataformas da Meta, simulando texto de publicidade e sites jornalísticos, quanto a incapacidade de a mesma tecnologia de IA que a Meta oferece para criar e otimizar anúncios não ser usada para travar fraudes deste tipo", alerta.
É preciso verificação e fiscalização de anúncios em volume para garantir que anunciantes sejam autênticos e atestar que o objeto do anúncio é legítimo. É preciso lembrar que o mesmo conjunto de páginas inautênticas usado para realização de anúncios fraudulentos opera de forma conectada com sites impostores e canais em outras plataformas, e toda essa engenharia é aproveitada para propagação de fake news e outros tipos de conteúdos enganosos que causam durante as eleições
– Tatiana Dourado, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD)
Em seu site, a Meta diz que remove conteúdo "que busca intencionalmente enganar, fazer declarações falsas de maneira deliberada ou explorar as pessoas de outra forma por dinheiro ou propriedade". Na prática, entretanto, isso não tem ocorrido. A Meta não retornou os questionamentos feitos pela reportagem. 

Anúncios patrocinados são mantidos

A Lupa mostrou em reportagem publicada em 2 de fevereiro que, dois meses após o início da veiculação desse golpe, a Meta continuava a permitir em sua biblioteca de anúncios a circulação de posts patrocinados com o vídeo manipulado. Apesar das denúncias, essas publicações ainda continuavam no ar — ao todo, foram localizados mais de 50 posts pagos na plataforma da Meta até a tarde de quinta-feira (15). 
A reportagem questionou a Meta na ocasião. A empresa enviou apenas uma resposta padrão informando que atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não eram permitidas. 
A Havan tem adotado ações judiciais contra a Meta ao menos desde 2022. Inclusive há, segundo a empresa, uma liminar na Justiça desde novembro que ordena a Meta a tomar providências e bloquear conteúdos. "Temos uma ação em que mais de 580 links são mencionados e as redes da Meta e Google são demandadas. É um trabalho diário e de certa forma difícil de combater, porque denunciamos e derrubamos um, surgem outros dez", afirma o coordenador do setor de ouvidoria da Havan, Fábio Roberto de Souza. 

Não caia em golpes

A Havan esclarece que só vende seus produtos por meio do site da loja, que é havan.com.br. "Então, se você vir por aí na internet qualquer coisa diferente disso, saiba que não somos nós", diz a empresa, em comunicado publicado em seu site. 
O Procon de São Paulo, citado em alguns dos posts, afirmou em nota que não intimou a empresa Havan para cumprir qualquer obrigação e, portanto, também não publicou nenhuma notícia em seu portal sobre este assunto. Ainda segundo o Procon, a recomendação é que toda informação seja confirmada diretamente no www.procon.sp.gov.br e não apenas por imagens e vídeos em posts.
O Banco Central reforça em seu site que é importante não clicar em sites que peçam dados pessoais e bancários prometendo resgates ou saques de dinheiro. Além disso, o usuário deve ficar atento aos certificados de segurança e só deve fornecer informações pessoais como endereço, CPF e dados de cartão de crédito quando tiver certeza de que a empresa existe e de que o site é confiável.

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Nathallia Fonseca
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