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Estudo citado em vídeo não prova eficácia da ivermectina contra a dengue
23.02.2024 - 19h01
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais um vídeo no qual um homem afirma que a ivermectina pode ser usada no tratamento da dengue. Para embasar a defesa do uso do medicamento, o homem mostra um estudo científico que comprovaria que o fármaco reduz os níveis de uma proteína essencial para a replicação do vírus da dengue. É falso
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Existem estudos sérios comprovando a eficácia da ivermectina contra o vírus da dengue. Mas o MS [Ministério da Saúde] diz que é boato
– Legenda de vídeo que circula pelo WhatsApp
Falso
O estudo exibido no vídeo não prova que a ivermectina é eficaz no tratamento ou prevenção da dengue. Trata-se de um ensaio in vitro, realizado fora de organismos vivos, e que não analisou os efeitos da substância em seres humanos. A pesquisa observou que a ivermectina diminuiu a secreção da NS1, uma proteína específica do vírus da dengue. Isso, no entanto, não quer dizer que o fármaco atuou contra a doença. Além disso, o próprio artigo aponta que a ivermectina não reduz a carga viral da dengue no sangue.
A pesquisa “Dengue virus NS1 secretion is regulated via importin-subunit β1 controlling expression of the chaperone GRp78 and targeted by the clinical drug ivermectin”, citada no vídeo, foi publicada na revista da Sociedade Americana de Microbiologia em setembro de 2023.
O médico infectologista Julio Croda explica que o artigo é um estudo in vitro — quando são feitos testes com componentes isolados, fora do seu contexto biológico normal.
“Trata-se de um estudo exploratório que não mostra dados da eficácia e segurança da ivermectina para dengue. Como é um estudo in vitro, não é possível estimar dose necessária versus toxicidade. É importante ter estudos em humanos, que chamamos de ensaios clínicos, tanto para vacinas quanto para esses medicamentos.”- Julio Croda, médico infectologista
A proteína NS1 é uma das responsáveis pela replicação viral e, portanto, apenas a sua diminuição não significaria que a doença está sendo combatida. O ciclo viral se inicia com várias proteínas, e não só a NS1. Ela é secretada por células infectadas e pode ser encontrada no plasma sanguíneo de pacientes infectados.
O próprio texto cita as conclusões de outro artigo, que apontou que a ivermectina não apresentou “efeito significativo” em relação à viremia — a presença de vírus no sangue —, e afirma que observou resultados semelhantes.
A bióloga Maria Helena Menezes, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ressalta que é complexa a reação do organismo à dengue e que a ivermectina pode representar um perigo se consumida indiscriminadamente, podendo gerar lesões hepáticas e renais no indivíduo.
Rosana Richtmann, médica infectologista do Hospital Emílio Ribas e coordenadora do Comitê de Imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), ressalta que não há comprovação científica que a ivermectina tenha ação contra a doença. “Dengue é uma doença que precisa do manejo adequado, que precisa de hidratação e de avaliação médica e a ivermectina não tem nenhum papel sobre isso. A ivermectina é uma excelente droga contra parasitas, mas para dengue, não”, afirma.
O Ministério da Saúde não reconhece qualquer protocolo que inclua a ivermectina para o tratamento da dengue. A pasta também diz que o medicamento não é eficaz em diminuir a carga viral da dengue. 
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