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Tráfico de órgãos e testes ilegais de vacina: a desinformação russa contra Zelensky no 2º ano da guerra
24.02.2024 - 08h00
Porto Alegre - RS
Há dois anos, quando a Rússia bombardeou as duas maiores cidades da Ucrânia, Kiev e Kharkiv, na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, provocando 137 mortes, teve início uma guerra que tem reflexos até no Brasil. Embora distante dos conflitos, o país se tornou um importador de desinformação russa que chega aos brasileiros, sobretudo, via canais do Telegram em língua portuguesa. Na disputa virtual, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem sido o principal alvo de informações falsas.
Em janeiro, a Lupa publicou uma reportagem mostrando que dez canais do Telegram no Brasil — com 237,2 mil inscritos — distribuem conteúdos fraudulentos que buscam disseminar a política promovida pelo Kremlin, com destaque para as insistentes publicações que buscam justificar a guerra com o intuito de desnazificar a Ucrânia. A desinformação contra Zelensky, contudo, não se notabiliza pela quantidade de postagens, mas por um conteúdo enganoso que se tornou mais complexo no decorrer da guerra.
No primeiro ano de conflito, a Lupa desmentiu vídeos de cocaína sobre a mesa de Zelensky e do presidente cantando com a primeira-dama, Olena Zelenska. Também constatou como falsos posts que mostravam fotos de Zelensky no campo de batalha e na linha de frente contra tropas russas. 
Já no segundo ano de guerra, o conteúdo desinformativo contra o presidente ucraniano tem se mostrado mais elaborado e inclui falsificação de documentos, vídeos com depoimentos fraudulentos e conteúdo jornalístico deturpado.
Nesta reportagem, a Lupa checou quatro conteúdos desinformativos contra Zelensky que chegaram ao Brasil nos últimos três meses via Telegram. São publicações que buscam desacreditar e imputar crimes ao presidente ucraniano.

Mortes de crianças em testes de vacina contra Covid-19

Post publicado em 10 de fevereiro no canal Virumania (com 11 mil inscritos) — que adota uma postura antivacina — alega que Zelensky supostamente autorizou a Pfizer a administrar, em crianças ucranianas, vacinas contra Covid-19 disfarçadas de imunizantes anti-gripe. A publicação afirma que crianças estão morrendo e que a farmacêutica segue com os testes.
Há ainda um link que leva para um artigo de um site em italiano. A página alega que uma funcionária da Pfizer em Kiev, chamada Anna Sakhno, divulgou um vídeo em que relata o caso. A gravação está disponível em um canal do Telegram, em inglês, chamado Intel Republic, com 81 mil inscritos. 
No vídeo, a suposta funcionária da Pfizer diz que foram feitos testes com uma vacina chamada C6160B, em um projeto coordenado por Zelensky, e que, poucas semanas após os testes, a taxa de mortalidade atingiu 4% e as hospitalizações atingiram um percentual de 20%.
As alegações são falsas. Não há evidências de que exista uma suposta vacina chamada C6160B. Uma busca no site Clinical Trials, que reúne ensaios dados sobre ensaios clínicos em todo o mundo, não revela nenhuma pesquisa com vacinas contra Covid-19 em crianças na Ucrânia.
Em nota enviada à Lupa, a Pfizer afirma que não compartilha registro de empregados, mas assegura que a vacina contra Covid-19 é segura e eficaz. A farmacêutica diz ainda que não possui, em seu portfólio de vacinas, um imunizante aprovado para prevenção da gripe (influenza), mas que realiza estudos nesse sentido. 
A informação é comprovada no informe divulgado em 30 de janeiro, que detalha as pesquisas da empresa. O estudo encontra-se na fase 1 (primeiro estudo a ser realizado em seres humanos e tem por objetivo principal demonstrar a segurança da vacina), como pode ser visualizado na página 15. De acordo com o Clinical Trials, o estudo vem sendo conduzido apenas nos Estados Unidos.
Esse conteúdo também foi verificado por Stop Fake e Logically Facts.

Transplante de órgãos de soldados ucranianos feridos

O canal da agência estatal russa Sputnik Brasil (44,9 mil inscritos) publicou, no início de dezembro de 2023, que médicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com aval de Zelensky, estavam usando soldados ucranianos feridos na guerra como doadores de órgãos.
A fonte da informação, conforme a Sputnik Brasil, é o jornal nigeriano The Nation, que relatou a história de um suposto funcionário do Global Surgical and Medical Support Group (GSMSG) — organização médica dos Estados Unidos sem fins lucrativos, que atua em colaboração com o Comitê de Chefes Médicos da Otan. 
A reportagem traz um vídeo de 14min21s no qual o homem, que se mantém anônimo, relata que recebia soldados feridos em batalhas na parte oriental da Ucrânia e avaliava o grau de lesão para a retirada de órgãos. "Normalmente, escolhi pacientes que já estavam inconscientes, mas capazes de sobreviver de 5 a 8 horas de transporte sem qualquer intervenção cirúrgica. Eu sabia que eles poderiam ser salvos, mas esse não era meu trabalho", afirmou.
O homem também exibe um certificado que teria recebido de Zelensky. "Durante minha missão na Ucrânia, definitivamente, recebi muito dinheiro e mais alguns certificados. Mas aquele que foi bastante impressionante, de maior magnitude não em termos de tamanho, mas em termos de quem está por trás disso, foi o certificado de honra que recebi do presidente Volodymyr Zelensky pelos meus serviços na Ucrânia. É isso”, diz.
Entretanto, o certificado citado pelo homem não é entregue pelo presidente da Ucrânia, mas pelo Verkhovna Rada, o Poder Legislativo da Ucrânia, conforme prevê resolução de 2011. Além disso, o documento mostrado no vídeo segue um padrão diferente do oficial.
O Parlamento ucraniano distribui duas honrarias: o ПОЧЕСНА ГРАМОТА (Certificado de Honra), que se destaca pelas letras douradas, e o Certificado da Verkhovna Rada da Ucrânia, que se diferencia pela fonte prateada. Nenhuma delas se assemelha ao documento apresentado pelo homem.
À esquerda, o certificado apresentado no vídeo. À direita, os certificados oficiais entregues pelo Parlamento da Ucrânia. Fotos: Reprodução
Não há evidências de que o GSMSG esteja atuando na extração ilegal de órgãos de soldados ucranianos. Em nota enviada à Lupa, o GSMSG afirmou que o conteúdo é uma “propaganda russa descarada”. “Para qualquer pessoa com um entendimento médico básico, essa reportagem é a coisa mais estúpida e incoerente que já lemos”, diz o comunicado. 
Em novembro do ano passado, o ministro da Saúde, Viktor Lyashko, informou que soldados ucranianos feridos são tratados em diversos países europeus, sendo transportados primeiro para a Polônia em voos realizados duas vezes por semana. Porém, conforme determinação de abril de 2022 publicada pela pasta, o encaminhamento de cidadãos para tratamento no estrangeiro durante o período de lei marcial precisa se encaixar em diversos critérios que incluem, por exemplo, tratamento altamente especializado devido a ferimentos provocados por agressão armada russa.
A Lupa entrou em contato com o Verkhovna Rada, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Checagens semelhantes foram realizadas pelo Gwara Media e Vox Ukraine.

Compra de iates milionários

No final de novembro de 2023, FreedomNews (26,4 mil inscritos) e Selva & Aço (37,8 mil inscritos) publicaram que Zelensky usou procuradores para ocultar a propriedade de dois iates de luxo no valor de US$ 75 milhões, chamados de "Lucky Me", de 46 metros, e "My Legacy", de 55 metros. Ambos trazem vídeos em inglês relatando o caso e textos em português sobre o assunto.
O vídeo do canal Selva & Aço traz documentos que comprovariam a aquisição do My Legacy pelos irmãos Boris e Sergey Shefir, supostos representantes autorizados por Zelensky.
Os documentos, contudo, foram falsificados. No topo das páginas está o antigo logotipo da Associação Mediterrânea de Corretores de Iates (Myba, sigla em inglês), que em 2008 passou a se chamar MYBA Associação Mundial de Iates. A antiga logo não é usada desde 2014
No topo, o logotipo atual da Myba, presente em seu site. Abaixo, os documentos presentes no vídeo com o logo antigo. Imagens: Reprodução
Em entrevista à AFP Checamos, a secretária-geral da Myba, Jane Adlington-Brumer, afirmou que os documentos “obviamente foram alterados”. Ela ainda disse que o atual logo da associação está em vigor desde 2021 e que a identificação exibida pelos documentos já não está em uso.
Até a conclusão desta reportagem, tanto o Lucky Me quanto o My Legacy seguiam à venda.

Fuga para os Estados Unidos

Em 4 de dezembro de 2023, o canal Operação Especial Z (3,7 mil inscritos) publicou que Zelensky planeja uma fuga para o estado norte-americano da Flórida e exibiu um atestado de naturalização dos Estados Unidos com a foto do chefe de estado.
Essas informações também são falsas. Modelos do certificado de naturalização são encontrados facilmente na internet. O documento oficial possui dois espaços entre os dígitos de registro, selo de uma água ao lado da foto e uma assinatura à esquerda da imagem (confira na imagem abaixo). Todos esses elementos estão ausentes no documento falsificado, como bem constatou a agência de notícias ucraniana Ukrinform
Nota: Para desenvolver esta reportagem, a Lupa trabalhou em colaboração com o Center for Information Resilience, uma organização sem fins lucrativos dedicada à investigação e combate à desinformação, investigando crimes de guerra e violações dos direitos humanos utilizando dados de fonte aberta.
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Nathallia Fonseca
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