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Posts fakes e sem provas sobre Marajó voltam a ganhar força nas redes
28.02.2024 - 15h00
João Pessoa - PB
Posts fakes ou com conteúdos sem provas voltam a circular em aplicativos de mensagens politizando casos de exploração sexual de crianças e adolescentes no Arquipélago do Marajó, no Pará. Monitoramento feito pela Palver em grupos públicos do WhatsApp e Telegram mostra que mensagens com esse tema alcançaram ao menos 730 mil diferentes usuários entre 21 e 27 de fevereiro deste ano.
Dentre as mensagens enganosas identificadas pela reportagem está a de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou com um programa assistencial lançado pela ex-ministra Damares Alves — sem contextualizar que o governo atual revogou a ação anterior e o substituiu por uma nova iniciativa. Há também posts como o de um vídeo que mostra um porta-malas cheio de crianças gravado no Uzbequistão, não em Marajó, e de um homem que beija uma criança em um barco – o caso ocorreu no Mato Grosso do Sul.
O tema voltou à tona principalmente após o compartilhamento de um vídeo com um trecho do reality show Gospel Dom. No registro, a cantora Aymeê Rocha, de 28 anos, canta uma música autoral em que denuncia a exploração sexual de crianças na Ilha de Marajó. A gravação foi disseminada por parlamentares bolsonaristas em suas redes, como os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Carlos Jordy (PL-RJ) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). 
A Lupa elencou os principais posts sobre o tema. Confira:

Denúncias de Damares

Em outubro de 2022 — durante as eleições presidenciais —  a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves disseminou durante um culto evangélico em Goiânia (GO) que tinha provas de que crianças estavam sendo traficadas para exploração sexual. "Temos imagens de crianças brasileiras, com quatro anos, três anos, que, quando cruzam as fronteiras, sequestradas, os seus dentinhos são arrancados para elas não morderem na hora do sexo oral”, disse, na época. Esse trecho do vídeo é um dos principais posts compartilhados nos grupos monitorados pela Palver. 
Damares também afirmou na ocasião que "essas crianças, elas comem comida pastosa para o intestino ficar livre para a hora do sexo anal [...]. Tem um crime organizado envolvido nisso, tem sangue, tem morte, tem sacrifício". Essas denúncias, entretanto, nunca foram comprovadas. 
O Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) solicitou o envio de informações sobre os supostos casos descobertos por Damares Alves, “indicando todos os detalhes que a pasta possua, para que sejam tomadas as providências cabíveis”. Os dados recebidos, segundo o MPF, revelaram registros desorganizados e genéricos, sem indicação exata do que havia sido requisitado. 
Assim, o MPF decidiu abrir uma ação civil pública contra a União e a senadora Damares Alves por "propagação deliberada de informações sensacionalistas falsas". Segundo o órgão, não havia provas ou registros de supostos atos de tráfico internacional de menores na Ilha do Marajó. Os procuradores estabeleceram o pagamento de R$ 5 milhões como indenização por danos sociais e morais coletivos, a serem revertidos em favor de projetos sociais destinados à região do arquipélago.
A reportagem entrou em contato com a assessoria da senadora Damares Alves, mas não obteve retorno até a publicação do texto. 
Ex-ministra Damares Alves, durante discurso feito em culto evangélico nas eleições de 2022

O que se investiga no Marajó?

Autoridades do Pará admitem que há ocorrência de crimes contra crianças e adolescentes na região. No entanto, os relatos feitos por Damares Alves no vídeo sobre crianças traficadas nunca foram provados, segundo o Ministério Público Federal.
O MPF afirma na ação que não se pode negar as graves violações de direitos humanos e a ocorrência de crimes no Marajó, incluindo exploração sexual de crianças e adolescentes, mas a divulgação de denúncias sem provas é injustificável. "Nada disso justifica, porém, a utilização sensacionalista da vulnerabilidade social daquela população, associada à divulgação de fatos falsos, como palanque político e eleitoral em benefício do então presidente da República e da própria ministra. Além de não contribuírem em nada, as reiteradas desinformações discriminatórias divulgadas por uma alta autoridade da administração pública federal reforçam estereótipos e estigmas históricos, confundem a sociedade e prejudicam a execução de políticas públicas sérias e comprometidas com a melhoria das condições sociais da população do Marajó", afirma. O processo ainda está em andamento.
Segundo o Ministério Público Estadual do Pará (MP-PA), em 2022, houve 550 processos de delitos cometidos contra crianças e adolescentes em todos os 17 municípios do Arquipélago do Marajó. Desse total, o crime de estupro de vulneráveis estava no topo, com 407 denúncias. "A violência sexual acaba por ter uma maior projeção no Arquipélago do Marajó, uma vez que encontra um terreno fértil de outras violações de direitos", diz o MP-PA.
Promotores de Justiça com atuação no Arquipélago do Marajó publicaram nota em 23 de fevereiro deste ano, afirmando que não há registros com provas de crimes relacionados ao tráfico de órgãos — também citado em posts sobre o tema. 
Discussões sobre o tema são pertinentes, mas devem ser baseadas em estudos, bem como as denúncias devem ser efetuadas nos canais adequados para que possam ser investigadas, chegando ao sistema de Justiça e à rede de proteção
– Ministério Público Estadual do Pará

Vídeos falsos

Para corroborar a tese de Damares Alves, os grupos compartilham vídeos de crianças e adolescentes sendo exploradas como suposta prova dos crimes que ocorrem na Ilha do Marajó. Contudo, muitas dessas peças não têm qualquer relação com a região.
Dentre os vídeos está o de um carro apreendido com 25 crianças no porta-malas. "Porque a esquerda e seus defensores têm tanto medo de Marajó", diz a legenda. Entretanto, o registro foi filmado no Uzbequistão, em setembro do ano passado. Segundo a imprensa local, a motorista trabalhava em uma escola e levava as crianças para casa.
Em outro vídeo, um homem aparece beijando na boca uma criança em uma embarcação. A legenda afirma que o registro foi feito em Marajó. "Tráfico de crianças na Ilha do Marajó. Homem beijando uma criança de 6 anos. Eles dão comida e bebida ao pai em troca de compra de criança".
Assim como no caso anterior, o vídeo não tem relação com o Pará. O fato ocorreu em Itaquiraí (MS), em novembro de 2021, e a gravação foi checada pela Lupa em 2021. Segundo a Polícia Civil, o homem tinha um relacionamento com a mãe da criança. O acusado foi assassinado horas depois de deixar a delegacia. 

Lula acabou com programa de Damares

Nos grupos monitorados pela Palver mensagens afirmam de forma enganosa que o presidente Lula revogou o programa "Abrace o Marajó", lançado pela ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves. Publicações sugerem que o governo atual, ao acabar com a iniciativa, estaria sendo omisso no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Arquipélago do Marajó.
Mensagem compartilhada nos grupos monitorados pela Palver
O presidente Lula de fato revogou, em setembro de 2023, o programa Abrace o Marajó, da ex-ministra Damares Alves. Entretanto, posts desinformam ao não explicar que o governo atual lançou um pouco antes da revogação, em maio de 2023, o Programa Cidadania Marajó, iniciativa similar com uma série de ações para enfrentar situações de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes no arquipélago. 
Segundo o atual governo, o programa anterior apresentava diversas fragilidades. Relatório da Controladoria Geral da União (CGU) mostrou que muitas das ações não foram implementadas no prazo prometido, "dificultando a consecução do objetivo do Programa de ampliar o alcance e o acesso da população marajoara aos direitos individuais, coletivos e sociais". A CGU também apontou em seu relatório divergências entre o orçamento previsto e o orçamento executado. Sete projetos não foram implementados no prazo previsto e um apresentou irregularidades. Se confirmado, o prejuízo aos cofres públicos pode chegar a mais de R$ 2,5 milhões (página 67).
Em sua conta no X, a senadora Damares Alves afirmou que a pandemia da Covid-19 dificultou as ações do programa. "Mas aí veio a pandemia, e praticamente todos os recursos que havíamos previsto para a região foram transferidos para o combate à doença e suas consequências. Ficou essa sensação de missão não cumprida. E que só aumentou quando o Lula e o ministro cancelaram o programa". 

AGU pretende investigar fakes

O ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, publicou em sua conta no X que determinou à Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia (PNDD) que  identificasse redes de desinformação sobre a Ilha de Marajó. "O governo federal está empenhado em apurar denúncias sérias para desarticular redes de tráfico humano e exploração sexual e infantil em todo o território nacional", afirmou. Messias também alertou que a publicação de imagens de crianças e adolescentes, nesse contexto, é crime. 

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Nathallia Fonseca
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