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Guerra Rússia-Ucrânia: Zelensky sofreu 23 vezes mais ataques de deepfakes e montagens do que Putin
Além de comandar as tropas na guerra contra a Rússia e de percorrer meio mundo pedindo apoio financeiro para enfrentar o avanço do presidente russo, Vladimir Putin, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski, tem outra árdua tarefa: sobreviver às deepfakes e às centenas de conteúdos audiovisuais falsamente manipulados para atacar sua credibilidade.
Dados obtidos pela Lupa na Fact Check Tool API, usada pelo Google para coletar, armazenar e exibir todas as checagens profissionais feitas no mundo, mostram que, entre 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu o território ucraniano, e 23 de fevereiro deste ano, véspera de o conflito completar dois anos, Zelensky já foi alvo de, ao menos, 162 vídeos, fotos ou áudios totalmente fabricados ou editados. O número é 23 vezes maior do que os ataques a Putin no período, que totalizaram apenas sete (leia mais abaixo).
Zelensky já "apareceu" em deepfakes sob o efeito de cocaína, "admitindo" ser viciado em drogas e com um punhado de pó branco em sua mesa de trabalho. "Foi visto" pedindo que os soldados ucranianos baixassem as armas e se rendessem aos russos. E apareceu em imagens manipuladas "participando" de uma parada gay realizada em Nova York em 1991 (quando ele só tinha 13 anos); sendo "xingado" pela estrela do futebol argentino Lionel Messi e ainda tendo "a bunda apalpada pelo presidente americano, Joe Biden". Isso tudo só em 2022, no primeiro ano da guerra.
Checagem feita pela AFP, nos Estados Unidos, em inglês
De lá para cá, Zelensky ainda foi envolvido em uma falsa compra de iates (com documentos fabricados), na aquisição de uma mansão (supostamente com dinheiro arrecadado junto a governo do ocidente) e até mesmo remexendo as cadeiras em uma animada, mas completamente falsa, dança do ventre.
Checagem feita pelo FactCheck.bg, na Bulgária, em búlgaro
Os dados também mostram que, ao passo que Zelensky vem sofrendo com uma média de sete mentiras tecnologicamente geradas por mês (quase duas por semana), o presidente russo e seu principal opositor, Vladimir Putin, parece livre do problema.
Nos primeiros dois anos de guerra, mundialmente lembrados no último sábado (24), Putin foi alvo de apenas sete notícias falsas audiovisualmente fabricadas, ou seja, 4% do total registrado por Zelensky. Seis delas foram flagradas pela comunidade internacional de fact-checkers em 2022 e uma em 2023. 
Entre os conteúdos, há um vídeo falso em que Putin supostamente ameaça o Quênia, e outro em que o presidente do Sudão do Sul aparece pedindo desculpas a um todo-poderoso Putin. No caso que mais viralizou, o presidente russo aparece numa foto, com as mãos algemadas. O registro original, no entanto, mostra que o rosto do presidente russo foi inserido no corpo de outro militar.
Checagem feita pelo FactCrescendo, no Camboja, em inglês
Em várias das checagens analisadas pela Lupa, os fact-checkers apontam a conexão entre o conteúdo fabricado contra Zelensky e as correntes desinformativas impulsionadas pelo Kremlin contra o presidente da Ucrânia. 
Este é o caso das falsidades que o aproximam do nazismo (como nesta foto alterada onde ele aparece segurando uma camiseta com uma suástica) e de possíveis casos de corrupção (como a compra de iates com dinheiro doado para a guerra). Mas a associação de Zelensky com crimes (consumo de drogas) e comportamentos que a Rússia repreende (como a homossexualidade) também compõem o quadro.
Em 2023, a comunidade internacional de checadores identificou um canal do Instagram que havia ganhado destaque ao divulgar supostas pinturas de rua feitas em Londres, Madrid, Paris, Bruxelas e Varsóvia. Nelas, Zelensky era retratado de forma depreciativa: irritado, ávido por dinheiro, ao lado de insetos, ou mesmo vomitando.
Mas as postagens que viralizaram não mostravam grafites reais, apenas fotografias sobre as quais o canal havia aplicado imagens digitalmente fabricadas. Para checadores que trabalharam nessas identificações (aqui e aqui), tratava-se de uma tentativa clara de manchar a imagem do presidente ucraniano ante a comunidade europeia, que financia Kiev no conflito.
Checagem feita pelo Correctiv, na Alemanha, em alemão
Conteúdos contra Zelensky também viralizam em português
Mas engana-se quem pensa que esses esforços se ativeram às línguas eslavas, ao inglês e ao espanhol. Na base de dados analisada pela Lupa, há conteúdos fabricados/editados contra Zelensky em pelo menos 19 idiomas. Alemão, inglês e italiano lideram o ranking. Mas português aparece em quarto lugar, empatado com grego. 
Em português, viralizou, por exemplo, uma fotomontagem de Zelensky fazendo "um chifrinho" na cabeça de Putin. Na postagem, vê-se a frase "onde tudo começou…", sugerindo de forma equivocada que a guerra é oriunda de uma brincadeira infantil.
Checagem feita pelo Polígrafo, de Portugal, em português
Também viralizou em português postagens que mostravam a foto de um suposto carro alegórico do carnaval de Veneza, na Itália, em que Zelensky aparecia carregando uma bandeira dos Estados Unidos e outra do nazismo. Nos posts, a hashtag #ÉCarnavalNinguémLevaAMal insinuava que o mundo supostamente não estaria disposto a ver o caráter nazista de Zelensky (que é judeu). 
Checagem feita pelo Polígrafo, de Portugal, em português
Ainda ganhou vida nas redes sociais em português um vídeo que mostra um cartaz crítico ao ucraniano, supostamente sendo colocado numa esquina da famosa Quinta Avenida, de Nova York. No falso poster, pedia-se que Zelensky colocasse fim à guerra. 
Em janeiro, a Lupa publicou uma reportagem mostrando que dez canais do Telegram no Brasil — com 237,2 mil inscritos — distribuem conteúdos fraudulentos que buscam disseminar a política promovida pelo Kremlin, com destaque para as insistentes publicações que buscam justificar a guerra com o intuito de desnazificar a Ucrânia. A desinformação contra Zelensky, contudo, não se notabiliza pela quantidade de postagens, mas por um conteúdo enganoso que se tornou mais complexo no decorrer da guerra.
No primeiro ano de conflito, a Lupa desmentiu vídeos de cocaína sobre a mesa de Zelensky e do presidente cantando com a primeira-dama, Olena Zelenska. Também constatou como falsos posts que mostravam fotos de Zelensky no campo de batalha e na linha de frente contra tropas russas. 
Já no segundo ano de guerra, o conteúdo desinformativo contra o presidente ucraniano se mostrou mais elaborado e incluiu falsificação de documentos, vídeos com depoimentos fraudulentos e conteúdo jornalístico deturpado. Leia mais aqui.

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Nathallia Fonseca
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