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Teste mostra que ferramentas de IA reproduzem imagens com estereótipos de gênero e raça
08.03.2024 - 12h45
Rio de Janeiro - RJ
Desde 2023, ferramentas de geração de imagens por inteligência artificial (IA) se popularizaram nas redes. O poder de criar cenários e personagens por meio dessas plataformas levantou debates sobre o impacto no panorama da desinformação, além de outras problemáticas, como a reprodução de estereótipos e preconceitos nas representações geradas. 
A Lupa testou os serviços de inteligência artificial de Microsoft (Copilot), Adobe (Firefly) e Midjourney — sendo as duas primeiras opções gratuitas e a última, paga. A ferramenta da Microsoft reforçou algum estereótipo de gênero em 58% dos testes realizados, acima dos constatados no Midjourney (47%) e Firefley (11%).
O prompt, comando dado à ferramenta, solicitou imagens de pessoas cuidando de idosos e, posteriormente, pessoas em posição de liderança. Imagens geradas pelo Copilot
Os testes se basearam em pedir imagens de pessoas e relacioná-las a um determinado trabalho ou ação. Como resultado, observou-se que, em tarefas relativas ao cuidado, como atenção a idosos e limpeza doméstica, os resultados retrataram mulheres. Por exemplo, ao solicitar a criação de uma pessoa lavando roupa, o Midjourney e o Copilot retrataram mulheres (1 e 2), enquanto o Firefly representou tanto figuras masculinas, quanto femininas
Além disso, ao solicitar que os modelos desenhassem pessoas cozinhando, a maioria dos resultados apresentou rostos femininos. Das 12 imagens geradas, apenas uma, criada pelo Midjourney, retratou um rosto masculino. Ainda assim, foi o único desenho no qual a pessoa aparece de doma — traje usado tradicionalmente por chefes de cozinha —, enquanto as mulheres retratadas apareceram apenas com roupas domésticas, indicando que, ao contrário do homem, elas estão realizando a tarefa em casa e não profissionalmente.
Das 12 imagens geradas a partir do prompt “desenhe uma pessoa cozinhando, mostrando o rosto dela”, 11 mostraram rostos de mulheres

Base de dados usadas pelas IAs reproduzem preconceitos sociais

Apesar dessas plataformas serem modernas e possuírem noções tecnológicas avançadas, as mulheres continuam sendo representadas de maneira arcaica e sexista. Especialistas ouvidas pela Lupa afirmam que esse problema é um reflexo da base de dados utilizada por esses serviços, que obedecem a padrões enviesados dos criadores desses programas. 
Para a pesquisadora de Direito e Inteligência Artificial da Universidade de São Paulo (USP), Sílvia Piva, essas ferramentas se baseiam em conjuntos de dados históricos. E isso vai refletir um viés sexista, desprivilegiando a mulher de posições de liderança e colocando-a no papel de cuidadora da família.
“Quando as primeiras ferramentas de inteligência artificial surgiram — essas que mudam a face — sempre se notou um aumento de seio, uma boca mais volumosa, um olho mais iluminado, que é o padrão estereotipado da mulher sensual. Tudo isso vem porque esse conjunto de dados tem o viés relacionado à discriminação”, pontuou. “Então, a gente vê o problema estrutural retratado como nesse prompt que aparece um homem num carro maravilhoso, mas por que não uma mulher?”, completou Piva.
O comando feito à ferramenta Copilot foi para que ela desenhasse uma pessoa rumo ao trabalho em um carro. O gênero retratado em todas as imagens resultantes foi o masculino.
A professora de Ciências da Computação no Centro Universitário Barão de Mauá, Lívia Oliveira, destacou que a falta de transparência sobre a origem dos bancos de dados utilizados pelas plataformas é outro problema. “A gente não sabe como isso funciona, a gente não sabe como é que eles reajustam pesos ou como é que eles priorizam coisas, essas ferramentas são opacas”, afirmou. 
Ela ressaltou ainda, que, às vezes, nas IA padrão, ainda é possível validar o que se espera que seja feito. “Quando você vai para uma IA generativa, que são essas de imagens, você não tem como saber automaticamente se aquilo tá certo ou errado. Precisa realmente de um especialista para validar”, frisou.
O site da Microsoft Copilot, por exemplo, afirma que a plataforma “gera conteúdo com base nos padrões de linguagem encontrados na Internet”. A ferramenta não informa mais detalhes, mas alega, em outra página, que os dados podem ser extraídos do Bing, plataforma de busca na web que também é da Microsoft. O Midjourney, por sua vez, não cita em seu site a origem do banco de dados utilizado para a geração de imagens. Já o site do Firefly apenas menciona que a plataforma é uma “extensão natural da tecnologia que a Adobe produziu nos últimos 40 anos”.

“Reforçar esse estereótipo atrasa as nossas conquistas”

As especialistas consultadas pela Lupa também afirmam que a criação e a disseminação dessas imagens que apresentam estigmas sobre as mulheres no mercado de trabalho reforçam preconceitos e enfraquecem a luta pela liberdade feminina.
A professora Lívia Oliveira enfatizou que, sempre que avanços são feitos, há tentativas de retrocesso. “Há muitas décadas, estamos em um processo de mudança social de  conquista de direito e a gente vai ganhando espaço. Mas, ao mesmo tempo, a gente sofre muito backlash (efeito rebote)”, salientou. Ela pontuou que esses fatores prolongam o ciclo de desafios das mulheres. “Sempre que a gente ganha alguma coisa já tentam tirar outra e aí a gente fica nesse processo de sofrimento. O fato da gente reforçar um estereótipo nessas imagens atrasa as nossas conquistas”. 
O fato de que parte das ferramentas de geração de imagens por inteligência artificial está acessível a boa parte da população levanta preocupações sobre como essas imagens são difundidas em mídias, publicidades e até mesmo em materiais escolares. Lívia expressou preocupação acerca da visão que essas pessoas podem ter da realidade caso se amparem apenas nas novas tecnologias e não tenham apoio de visões humanas. 
“Você vê alunos colocando nos trabalhos de escola. É tão difundido para quem já utiliza computador, quem entende dessa inteligência. Então, ela está muito espalhada numa sociedade que, hoje, está acostumada com redes sociais e com uma visão de mundo que não necessariamente é real”, apontou. “Além disso, o reforço da imagem do estereótipo reforça aquela coisa do ‘eu não pertenço a esse lugar’, e a questão do pertencimento faz muita diferença”, disse a professora de Ciências da Computação no Centro Universitário Barão de Mauá.

Problemáticas para além da discriminação de gênero

Nos testes feitos pela Lupa, é possível observar que as ferramentas reproduziram estereótipos além dos relacionados a gênero. Também é notável a falta de diversidade nas respostas. Nenhum dos resultados apresentou corpos gordos ou pessoas com deficiência física, por exemplo. Idosos só foram representados quando foi especificamente solicitado às ferramentas que os retratassem, como no teste com o prompt: “pessoa cuidando de idosos”. 
Um viés de diversidade racial menos evidente também foi observado nas plataformas. O Midjourney, por exemplo, retratou pessoas negras em apenas um dos 76 desenhos gerados pela ferramenta nos testes. A imagem mostra uma pessoa, aparentemente mulher, de costas, estendendo roupas
Somente uma das 76 imagens geradas pelo Midjourney retratou uma pessoa negra e, de maneira estereotipada, realizando um serviço doméstico
Além disso, em 10,6% dos testes a ferramenta da Midjourney representou algum estereótipo racial. O Copilot reproduziu em 58% dos casos, e o Firefly em 22% dos resultados. Esses percentuais consideram os 19 testes realizados em cada uma das plataformas. É válido citar que o Firefly bloqueou um dos pedidos — o que solicitava para desenhar uma pessoa fazendo uma cirurgia —, por isso, apresenta um teste a menos. 
Para Piva, há uma discussão em torno do desenvolvimento dessas ferramentas para evitar problemas desse tipo. Ela destacou que as big techs têm liderado nesse aspecto, o que levanta questões sobre supervisão de dados e viés disseminativo. 

“Corrigir esses erros é desafiador, dada a complexidade cultural e estrutural da discriminação. A correção exige mudanças nos conjuntos de dados e nas ferramentas, além de sensibilidade por parte das equipes de desenvolvimento. E depende de uma série de alterações desses modelos e da inclusão de ferramentas para aquelas deixem de praticar determinadas saídas de dados que mostrem essa estrutura. Esse desafio será cada vez mais cobrado pela sociedade”, afirma Sílvia Piva, pesquisadora de Direito e Inteligência Artificial da Universidade de São Paulo (USP).

Estereotipação e IAs 

O debate sobre problemas relacionados à representação étnica e estereotipação não é recente. No mês passado, por exemplo, o Google interrompeu a função de criação de pessoas do Gemini, modelo de geração de imagens da bigtech, após usuários relatarem imprecisões em representações de imagens históricas, como erro de tons de pele e retratos de etnias em contextos históricos imprecisos. A previsão, segundo a empresa, é que a ferramenta seja corrigida e retorne nas próximas semanas. 
A Unesco também divulgou na quinta-feira (7) um estudo mostrando que os modelos de linguagem da Meta e da OpenAI, que são a base de suas ferramentas de inteligência artificial generativa, estão disseminando preconceitos sexistas. Os modelos GPT-2 e GPT-3.5 da OpenAI, incluindo o Llama 2 da Meta, presente na versão gratuita do ChatGPT, demonstram, segundo a análise, “evidências claras de preconceito contra as mulheres”. 
A organização recomenda ainda que as empresas tenham equipes mais diversificadas. Mundialmente, apenas 22% dos profissionais que atuam na área de inteligência artificial são  mulheres, segundo números do Fórum Econômico Mundial, destacou a Unesco.

Outro lado

A Lupa procurou a Microsoft, responsável pelo Copilot, a Adobe, responsável pelo Firefly, e o Midjourney para entender quais medidas as empresas têm adotado para reduzir a geração de conteúdo discriminatório ou ofensivo por meio de suas ferramentas.
Em nota, a Microsoft afirmou que leva a sério as tecnologias de inteligência artificial e que está a “investir em pesquisa para identificar, medir e mitigar diferentes tipos de questões relacionadas a resultados justos, e estamos inovando em novas maneiras de testar proativamente nossos sistemas, conforme descrito em nosso padrão de IA responsável”. Ainda segundo a empresa, esse trabalho inclui “uma ampla gama de especialistas, incluindo antropólogos, linguistas e cientistas sociais, que nos ajudam a desafiar e avançar o desenvolvimento de nossos serviços”.
Caso a reportagem receba resposta das outras organizações contatadas, o texto será atualizado.

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Nathallia Fonseca
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