UOL - O melhor conteúdo
Lupa
Marielle: como delegados mentiram para atrasar resolução e ocultar mandantes
25.03.2024 - 07h59
Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, e Giniton Lages, primeiro responsável pelo inquérito do caso Marielle
A trajetória de um carro, ao passar pelo Centro de Convenções SulAmérica, na Avenida Paulo de Frontin 1, na Cidade Nova, na zona central da cidade do Rio de Janeiro, dificilmente escapa das lentes das seis câmeras de segurança distribuídas pela fachada do complexo. Por volta de 21h30min do dia 14 de março de 2018, um Cobalt prata cruzou pela frente do prédio. Ao volante, o ex-policial militar Elcio Queiroz. No banco de trás, Ronnie Lessa, com a sua submetralhadora ainda fumegante. 
Ele acabara de matar a então vereadora pelo PSOL Marielle Franco e o motorista dela, Anderson Gomes. Os criminosos seguiam para a Avenida Francisco Bicalho, também na zona central, de onde pegariam a Avenida Brasil, rumo à casa da mãe do atirador, no Méier, zona norte da cidade. Dos seis monitores, apenas um teve as imagens requisitadas pelos investigadores, à época. Nelas, não havia um único registro do carro dos criminosos.
A Polícia Federal (PF) só descobriu o percurso do Cobalt cinco anos e quatro meses depois, com a delação premiada de Elcio Queiroz. Para os agentes federais, a falta das imagens do centro de convenções, que poderiam dar o caminho para chegar aos pistoleiros, não foi obra de incompetência ou desconhecimento. Foi proposital. A ausência do conteúdo de cinco câmeras, ignorado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), primeira responsável pelo caso, foi parte de uma trama armada pelos próprios policiais para impedir a descoberta dos executores e dos mandantes dos homicídios.
A desinformação, como a PF sustenta agora, foi aliada dos assassinos de Marielle e Anderson. A conclusão faz parte do inquérito federal sobre o mando do duplo assassinato e fundamentou a prisão do ex-chefe da Polícia Civil do Rio, delegado Rivaldo Barbosa, e o cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços do ex-titular da DH, delegado Giniton Lages, primeiro responsável pelo inquérito, e de seu braço direito, o inspetor Marco Antônio de Barros Pinto, o Marquinhos. A PF reuniu provas de que esses agentes disseminaram desinformação, além de ignorar provas e descartar testemunhas-chave, para proteger os reais criminosos.
A conclusão da PF surpreendeu a família de Marielle e pessoas próximas a ela. A mãe da vereadora, Marinete Silva, disse que os familiares tinham uma relação de confiança com o delegado Rivaldo Barbosa, que prometeu a eles que "era uma questão de honra" esclarecer o crime. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, amigo de Marielle, publicou no X que foi para Rivaldo que ligou na noite do crime: "Ele era chefe da Polícia Civil e recebeu as famílias no dia seguinte junto comigo. Agora Rivaldo está preso por ter atuado para proteger os mandantes do crime, impedindo que as investigações avançassem".
Uma imagem registrada pela fotógrafa Tânia Rêgo para a Agência Brasil voltou a circular nas redes sociais no domingo. Ela mostra o delegado sentado ao lado de Freixo e de familiares de Marielle em abril de 2018. Monica Benício, atual vereadora do Rio e viúva de Marielle, disse que a conclusão da PF mostra que a Polícia Civil não foi apenas negligente, mas também conivente com o crime.
Rivaldo Barbosa ao lado dos pais de Marielle Franco. Foto: Tânia Rêgo, Agência Brasil, Arquivo, 2018
Imagens de câmeras do trajeto não foram recolhidas
Em sua delação, Élcio contou que, após disparar a rajada contra o carro de Marielle Franco, Lessa deu ordens para que seguissem com o Cobalt até a casa de sua mãe. O carro percorreu as ruas do Estácio até a Avenida Brasil. Depois, rumou pela Linha Amarela, sentido Barra da Tijuca, e entrou na saída para o Méier. Quinze minutos depois do crime, Lessa e Élcio chegaram ao endereço e deixaram o veículo estacionado na rua. 
Com as imagens das câmeras do centro de convenções, a DH teria descoberto o resto da trajetória, facilmente identificando os dois pistoleiros. Em vez disso, como revela agora o relatório da PF, o emissário da DH encarregado de apurar as imagens limitou-se a tirar, com o próprio celular, uma foto dos monitores do local, antes de ir embora de mãos vazias.
Na investigação, a PF sustenta que os irmãos Domingos (conselheiro do Tribunal de Contas do Estado) e Chiquinho Brazão (deputado federal pelo União Brasil), mandantes do duplo homicídio, fizeram um acerto com o delegado Rivaldo Barbosa para boicotar a investigação. O esquema, definido na delação de Ronnie Lessa como "virar o caminhão para o outro lado", consistiu em forjar provas e creditar falsos testemunhos para acusar o então vereador Marcelo Siciliano (PP) como mandante dos crimes.
Quando Lessa partiu para a empreitada criminosa, já sabia que o chefe da Polícia criaria uma rede de proteção para garantir a impunidade. Rivaldo, que tomou posse um dia antes do crime, nomeou Giniton Lages, um subordinado de confiança, para a chefia da DH Capital no dia 15 de março, menos de 24 horas após o crime. Dias depois, o aparecimento de uma "testemunha-chave", o PM Rodrigo Jorge Ferreira, Ferreirinha, que acusava Siciliano do crime, a polícia passou a trabalhar somente com essa linha de investigação, desprezando as demais e ferindo um princípio básico de casos de homicídios: explorar e esgotar todas as suspeitas.

Braço-direito de delegado extorquiu Lessa para nublar investigação

O nome de Marquinhos, braço-direito de Lages, foi mencionado por Élcio em outubro do ano passado, durante audiência de instrução e julgamento de Maxwell Simões Corrêa, o Suel, também acusado de envolvimento nos crimes. Queiroz acusou o policial civil de extorquir Lessa para atrapalhar as investigações do caso. No depoimento, Élcio disse que “na Divisão de Homicídios, o Ronnie me falou que o Marquinhos cobrou dinheiro dele para não investigar. Não sei se você sabe, doutor, mas só 3% dos homicídios são esclarecidos. Como vou confiar numa polícia dessas?”. 
Marquinhos também interrogou o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega na última semana de agosto de 2018. A princípio, ele deveria comparecer à DH em setembro daquele ano, mas pediu a remarcação do depoimento porque não queria perder a vaquejada de Lagarto, em Sergipe, prevista para acontecer no Parque Zezé Rocha entre os dias 30 de agosto e 3 de setembro de 2018. Ficou acertado que o depoimento seria colhido na madrugada, para não chamar a atenção da mídia, que fazia plantão na porta do prédio durante o dia. A PF suspeita que houve propina também neste depoimento.
No âmbito da chamada “investigação da investigação”, conduzida também pela PF, em 2019, com o objetivo de apurar a obstrução do inquérito, foram encontradas mensagens entre Ferreirinha e o inspetor Marquinhos, da DH, nas quais o policial orientou a testemunha com o objetivo de “corrigir falhas e fazer ajustes em seus depoimentos, em vez de tomá-las como alerta e buscar auditar a versão de forma escorreita”, como concluiu o inquérito, à época.
Um dos pontos destacados é a não utilização das imagens de cinco das seis câmeras de vigilância do SulAmérica, a 200 metros do ponto onde Marielle e Anderson foram executados.  
Imagens do ponto de partida do Cobalt também foram ignoradas
Outro ponto assinalado nas investigações foi o início da trajetória do Cobalt prata, na tarde de 14 de março de 2018. A delação de Élcio confirma o que já se desconfiava: a dupla partiu no carro clonado de um ponto nas proximidades do condomínio Vivendas da Barra, onde Lessa morava, na Avenida Lúcio Costa. Todavia, a DH alegou, à época, que só conseguiu imagens a partir do Quebra-Mar, a cerca de 3,5 quilômetros do condomínio, em direção à zona sul da cidade. 
Esses dois pontos já estão confirmados pelas fontes. Resta agora confirmar os demais. Especialmente a postura dos investigadores, logo após o crime, na chamada “hora de ouro” da investigação, terem descartado a identificação e o depoimento de testemunhas da ação, cuidado tomado por uma repórter que cobriu o caso.
A PF também levantou suspeitas de que, quando a trama contra Siciliano caiu por terra, praticamente levando a DH à prisão dos verdadeiros culpados, novamente a desinformação entrou em cena. Giniton, ao supostamente vazar consultas de Lessa no Google, nas quais personagens como a ex-presidente Dilma Rousseff e o atual presidente da Embratur, Marcelo Freixo, eram alvo de violentas hostilidades, teria tentado plantar a ideia de que Marielle e Anderson teriam sido vítimas de crime de ódio, sem mando.
Giniton e Marquinhos tiveram de entregar os passaportes, estão proibidos de trocar conversas e passaram a usar tornozeleira eletrônica. Porém, com a coleta de provas nas buscas, a PF espera pedir outras medidas contra os dois.
Chico Otávio cobre o caso Marielle Franco desde o início e passou os últimos três anos dedicado a ele. Suas investigações do caso viraram o livro “Mataram Marielle”, publicado pela editora Intrínseca, escrito em parceria com a também jornalista Vera Araújo. Chico foi repórter de O Globo e O Estado de S.Paulo. Dá aulas de jornalismo na PUC-Rio.

LEIA MAIS


Clique aqui para ver como a Lupa faz suas checagens e acessar a política de transparência
A Lupa faz parte do
The trust project
International Fact-Checking Network
A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos.
A Lupa está infringindo esse código? FALE COM A IFCN
Tipo de Conteúdo: Reportagem
Conteúdo investigativo que aborda temas diversos relacionados a desinformação com o objetivo de manter os leitores informados.
Copyright Lupa. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

Leia também


10.04.2024 - 17h41
Redes Sociais
X acumula embates com governos por falta de transparência e é proibido em 6 países

A extrema-direita vem usando o embate entre o dono do X, Elon Musk, e o ministro do STF Alexandre de Moraes para defender a "liberdade de expressão" diante do que eles chamam de "censura". Alegam que a rede pode ser bloqueada no Brasil e citam exemplos de países que proibiram o acesso. A Lupa elencou a situação do X em outras nações, confira.

Evelin Mendes
09.04.2024 - 11h36
Redes Sociais
Seis vezes que o X abriu brecha para desinformação em suposta defesa da liberdade de expressão

Um ano e meio desde a aquisição do Twitter por Elon Musk, agora chamado X, a rede ganhou a fama de ser o “esgoto da desinformação”. Sob o pretexto da “liberdade de expressão”, Musk permitiu que fakes circulassem livremente pela rede. A Lupa listou seis exemplos de decisões do bilionário que transformaram o X no epicentro de conteúdos falsos.

Carol Macário
06.04.2024 - 08h24
Eleições 2024
Falta de regulação e critérios de remoção de fakes impõem desafios ao TSE a 6 meses da eleição

Reportagem da Lupa mostra que, a 6 meses das eleições municipais, o desafio de estancar a desinformação — diante da falta de regulação pelo Congresso e pela omissão no monitoramento de algumas plataformas — vai exigir ainda mais atenção do TSE. Especialistas criticam ainda critérios que serão adotados para remoção de conteúdos enganosos.

Ítalo Rômany
05.04.2024 - 10h15
Política
Mistura de Páscoa, direito trans e NBA gera pico de 'fakes' nos EUA

Ignorando o fato de que o Dia da Visibilidade Transgênero existe desde 2009, religiosos conservadores usaram acusações falsas para atacar o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na Páscoa, depois de ele ter manifestado apoio à comunidade trans em um comunicado.

Cristina Tardáguila
04.04.2024 - 15h25
Política
Lula volta a trocar mil por milhões e erra mortes de crianças em Gaza

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) errou ao afirmar que 12,3 milhões de crianças morreram na Faixa de Gaza, em discurso na Conferência Nacional pelos Direitos das Crianças e Adolescentes em Brasília. É falso. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 13,7 mil crianças foram mortas na região desde o início do conflito entre Israel e o Hamas.

Nathallia Fonseca
Lupa © 2024 Todos os direitos reservados
Feito por
Dex01
Meza Digital