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Marielle: apenas 10% dos parlamentares se manifestam no Facebook após prisões
Sessão na Câmara em homenagem a Marielle Franco e Anderson Gomes. Crédito: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
A operação da Polícia Federal que levou à prisão três supostos mandantes do assassinato de Marielle Franco em março de 2018 fez com que o nome da vereadora morta a tiros no Rio de Janeiro gerasse uma média de 385 postagens por hora — ou seis por minuto — no Facebook no último domingo (24).  
Entre as 6h e as 17h de domingo (24), ao menos 2.160 páginas únicas criadas na rede social mais popular do Brasil fizeram 4.625 posts sobre o que parece ter sido o desfecho da aguardada investigação criminal iniciada há seis anos. Nesse universo, no entanto, chamou a atenção tanto o baixo número de políticos que usaram a plataforma para entrar na conversa como a maneira como engajaram na discussão.
Dos 513 deputados federais atuantes em Brasília, por exemplo, apenas 56 foram à rede social da Meta para falar de "Marielle". O grupo representa apenas oito dos 29 partidos políticos registrados no Brasil e apenas 15 das 27 unidades da federação.
Levantamento inédito feito pela Lupa, a partir de dados extraídos do CrowdTangle (ferramenta que permite analisar postagens feitas no Facebook), mostram que os deputados do PT fizeram 65 publicações sobre Marielle ao longo da jornada de domingo, sendo seguidos no ranking por membros do PSOL (que fizeram 17 posts), PCdoB (com 3), PSB (com 3), Rede, Republicanos e União (com um post cada um).
Nesse conjunto, há quem ressalte a demora na investigação (provocada pela tática desinformativa adotada por delegados); quem demonstre solidariedade à família da vereadora assassinada; e quem tenha se atido ao conteúdo noticioso, convocando seus seguidores para, por exemplo, acompanhar a coletiva de imprensa dada pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski.
Deputados do PT lideraram com publicações, seguidos no ranking por PSOL e PCdoB. Fonte: CrowdTangle
Parlamentares de São Paulo e do Rio de Janeiro lideraram as publicações sobre Marielle. Fonte: CrowdTangle
Nuvem de palavras baseada em 98 postagens de deputados federais no Facebook, mencionando 'Marielle' das 6h às 17h de domingo (24). Fonte: CrowdTangle
Assim como ocorreu no WhatsApp e no Telegram, a polarização que marca a política nacional também apareceu nas postagens de Facebook. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu partido, o PT, como o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu partido, o PL, foram citados ao menos sete vezes cada um. Nenhum deles, no entanto, fez publicações sobre 'Marielle' na plataforma.
Dos 81 senadores na ativa, apenas dois se pronunciaram sobre "Marielle" no Facebook no período analisado pela reportagem — ambos do PT nordestino.
PT tenta capitalizar resultados da investigação
A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, destacou-se na lista individual, tendo realizado cinco postagens sobre "Marielle" no Facebook ao longo das 12 horas de monitoramento. Além dela, outros 34 filiados à sigla do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também comentaram o caso. Uma análise do conteúdo revela que muitos deles pontuaram — às vezes nas entrelinhas e às vezes de forma explícita — o fato de o possível desfecho da investigação sobre o assassinato de Marielle e Anderson só ter ocorrido após o fim do mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Durante os anos de governo Bolsonaro as investigações do assassinato de Marielle e Anderson não avançaram", escreveu Gleisi.
"Desde o início do mandato do Presidente Lula, em janeiro de 2023, medidas foram tomadas e equipes da Polícia Federal autorizadas pelo Ministério da Justiça se somaram às investigações. Tais medidas foram decisivas para o esclarecimento do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson", sustentou o deputado e ministro das Comunicações, Paulo Pimenta.
Mas enquanto o PT do presidente tentava capitalizar para si os resultados da investigação, o PSOL de Marielle adotava outro tom no Facebook. 
PSOL pede cassação de Brazão e PL, 'desculpas' para Bolsonaro
Entre as 12h12 e as 12h17, as deputadas Talíria Petrone, Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna, todas do PSOL, fizeram três publicações para pedir a cassação de Chiquinho Brazão, deputado federal eleito pelo União Brasil preso como mandante do assassinato de Marielle. Duas horas mais tarde, os também deputados do PSOL Chico Alencar e Tarcísio Motta fizeram coro às congressistas.
No mesmo dia, a executiva do União Brasil decidiu, por unanimidade, expulsar Brazão de suas listas.
Seis deputados federais do PL, partido de oposição, usaram o Facebook para falar de "Marielle". Os deputados Zucco (PL-RS) e Capitão Alberto Neto (PL-AM) escreveram que é hora de saber "quem mandou matar Bolsonaro", em referência à facada que o ex-presidente levou durante a campanha presidencial de 2018. Cumpre lembrar que dois inquéritos foram feitos pela Polícia Federal sobre o episódio, que ambos concluíram que Adélio Bispo de Oliveira agiu sozinho e que não houve mandantes. 
Os parlamentares Júlia Zanatta (PL-SC) e Coronel Meira (PL-PE) adotaram uma abordagem diferente. Eles questionam se haverá pedidos de desculpas ao ex-presidente Bolsonaro, expoente da sigla que representam, por ter tido seu nome mencionado tantas vezes — pela imprensa e por usuários de redes sociais — em relação ao caso Marielle.
Entre os silêncios mais notados no Facebook, estão o do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, dos líderes do Comitê de Ética da Casa, Leur Lomanto Júnior (União/BA), Albuquerque (Republicanos/RR) e Bruno Ganem (Pode/SP). Também ficou em silêncio na rede o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

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Nathallia Fonseca
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