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Lula volta a trocar mil por milhões e erra mortes de crianças em Gaza
04.04.2024 - 15h25
São Paulo - SP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trocou novamente mil por milhões e errou ao afirmar que 12,3 milhões de crianças morreram por bombardeios na faixa de Gaza. A fala ocorreu na quarta-feira (3), durante discurso na 12ª Conferência Nacional pelos Direitos das Crianças e Adolescentes, em Brasília. 
No evento, ele pediu um gesto de solidariedade “às crianças, que no Brasil morrem de desnutrição porque ainda não recebem as calorias e as proteínas necessárias, mas, sobretudo (...) às quase 12 milhões e 300 mil crianças que morreram na Faixa de Gaza, em Israel, bombardeadas em uma guerra insana contra a humanidade”. 
Não seria possível, contudo, que 12,3 milhões de crianças morressem na Faixa de Gaza. Esse número supera em cerca de seis vezes a população total da região. Relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que há cerca de 2,2 milhões de pessoas – entre adultos, crianças e idosos – hoje naquela área. Em matéria publicada pela Agência Brasil, que pertence ao conglomerado de mídia do governo federal brasileiro, o dado usado por Lula aparece corrigido para “12,3 mil mortes”, sem menção ao erro do presidente.
De acordo com o porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Elder, os números mais recentes indicam que houve 13,7 mil mortes de crianças na região desde o início do conflito entre Israel e o Hamas. De acordo com dados da Ministério da Saúde palestino, os sucessivos conflitos em Gaza já deixaram mais de 100 mil vítimas, entre mortos, feridos e desaparecidos. O Unicef alertou ainda que pelo menos 17 mil crianças estão separadas dos seus pais ou desacompanhadas de parentes na região. 

Lula cometeu erros semelhantes

Esta não foi a primeira vez que o presidente Lula exagerou números ao trocar mil por milhões. Em julho de 2023, o chefe do Executivo afirmou, em entrevista à Record TV, que iniciou a reconstrução de “186 milhões de residências” do programa Minha Casa, Minha Vida que estavam paralisadas. O dado correto são 186 mil casas. Na ocasião, a fala de Lula gerou críticas e retaliações da oposição. 
No mesmo dia, o Palácio do Planalto divulgou uma reportagem com trechos da fala de Lula na qual consta o dado corrigido sobre a quantidade de residências que estão em reconstrução. “Só no nosso governo, construímos 4 milhões de casas. Foi o maior programa habitacional desse país. Agora, estamos lançando mais 2 milhões de casas nesses próximos três anos, e já começamos a reconstruir 186 mil casas que encontramos paralisadas”, disse o presidente, na matéria. 
Outro erro semelhante ocorreu em 11 de maio de 2023, dessa vez ao referir-se à quantidade de mortos pela Covid-19 no Brasil em discurso em Salvador, na Bahia. Na cerimônia de assinatura do Decreto de Regulamentação da Lei Paulo Gustavo, que destina recursos para a Cultura, Lula afirmou que 700 milhões de pessoas morreram durante a pandemia de Covid-19 no Brasil. 
“Só para gente ter ideia da desgraça que esse país foi submetido, dos 700 milhões de brasileiros que morreram da Covid, 300 milhões morreram por culpa de um governo negacionista, que não têm a menor sensibilidade de respeitar a ciência, a medicina e respeitar o povo, que precisava tomar a tomar vacina”, disse na ocasião.
É mais um erro. O Brasil registra, hoje, 711.249 mortes por Covid-19. Na época da declaração, o monitor registrava 704.320 mil óbitos. Além disso, o país tem 203,1 milhões de habitantes, segundo dados coletados em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A Lupa entrou em contato com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

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