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Mistura de Páscoa, direito trans e NBA gera pico de 'fakes' nos EUA
Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, foi alvo de fakes na Páscoa - Foto: RS via Fotospublicas
A mistura de religião, sexualidade e política causou um pico de desinformação online nos Estados Unidos no último fim de semana. A oito meses da eleição presidencial, os eleitores do republicano Donald Trump foram às redes sociais para atacar o presidente Joe Biden, candidato à reeleição pelo Partido Democrata, depois de ele ter manifestado apoio à comunidade transgênero e feito uma menção ao Dia da Visibilidade Trans, que é celebrado no dia 31 de março.
Um dos principais motivos que impulsionou a onda de mentiras e discurso de ódio foi o fato de que, em 2024, o Dia da Visibilidade Transgênero coincidiu com o domingo de Páscoa. Os posts desinformativos que vieram à tona — majoritariamente impulsionados por líderes católicos e personalidades conservadoras, entre eles um jogador da NBA — ignoraram, no entanto, que a data que reconhece as pessoas trans existe há 15 anos nos Estados Unidos.
A onda desinformativa começou na sexta-feira (29/3). No mesmo dia em que mais de 248 milhões de cristãos dos Estados Unidos celebravam a Sexta-Feira Santa, lembrando a crucificação de Jesus Cristo, a Casa Branca publicou em seu site um comunicado assinado por Biden chamando a atenção para o Dia da Visibilidade Transgênero. 
O texto, de sete parágrafos, afirmava que as "pessoas transgênero são parte do tecido" social dos Estados Unidos e que, portanto, "têm direito aos mesmos direitos e liberdades" que todos os demais cidadãos. Biden e a Casa Branca incluíam aí "a liberdade mais fundamental de poderem ser elas mesmas".
A nota, por si só, já teria sido polêmica. Dados públicos mostram que os Estados Unidos são um país onde o número de projetos de leis que chegam às assembleias estaduais buscando reduzir os direitos da população LGBTQ+ só cresce — já são pelo menos 484 proposições, segundo levantamento da American Civil Liberties Union (ACLU), impulsionadas por políticos conservadores.
Mas o fato de a nota da Casa Branca ter vindo à tona na Sexta-Feira Santa e destacar um evento LGBTQ+ que ocorreria no domingo de Páscoa deu impulso para um gigantesco embate político online. Dados extraídos do CrowdTangle, ferramenta de monitoramento que permite estudar o fluxo de informações que circulam no Facebook, mostram um pico de publicações que misturam termos do universo transgênero a palavras de cunho religioso.
Entre os dias 25 de março e 1º de abril, o Facebook registrou 2.461 publicações que citavam a palavra "transgênero" junto a expressões como "Páscoa", "Jesus" ou "cristãos", numa média de 14 posts por hora.
Grande parte dessas publicações desinformava ao dizer que Biden havia decidido aprovar o Dia da Visibilidade Transgênero coincidindo com a Páscoa católica, obedecendo um suposto interesse eleitoral de capturar votos em meio à comunidade LGBTQ+. 
O jogador de basquete do Orlando Magic Jonathan Isaac, conhecido por sua posição anti-vacina e por participar de eventos com contornos racistas, foi um dos que disseminou essa informação falsa. 
Segundo o Crowdtangle, 47 páginas que, juntas, têm um alcance de 43,8 milhões de usuários do Facebook, publicaram no domingo de Páscoa textos, fotos e links sobre Isaac ter atacado Biden depois de o político ter "declarado o 31 de março o Dia da Visibilidade Transgênero, coincidindo com o domingo de Páscoa".  Nas postagens que citavam Isaac textualmente, acusava-se a Casa Branca "de saber exatamente o que está fazendo", de promover divisão e ódio.
Reprodução de posts que replicaram posição crítica do jogador sobre a suposta medida eleitoreira de Biden
Impulsionadas pela mídia conservadora americana, que rapidamente amplificou o ataque de Isaac, esses posts ignoraram, no entanto, o fato de que, na verdade, a data da festividade trans já existe nos Estados Unidos desde 2009 e ocorre anualmente em 31 de março. 
Além disso, o fato de a Páscoa de 2024 cair no mesmo dia é fruto do acaso. Afinal, o feriado religioso muda de data a cada ano, ocorrendo sempre no primeiro domingo após a lua cheia que segue o equinócio da primavera. Esse contexto foi explicado em checagens sobre o tema publicadas por unidades de fact-checking dos EUA, como a do USA Today.
Ao saber da coincidência e obedecendo preceitos religiosos ligados à importância do perdão, no próprio domingo de Páscoa, o jogador de basquete foi ao X para se desculpar. 
"Em nome da justiça, Biden reconheceu o dia (da visibilidade transgênero) no ano passado quando não coincidiu com a Páscoa! Isso é importante e, para mim, retira do governo a intencionalidade (da ação deste ano)! Em vez de excluir o tweet (de crítica ao presidente) como se ele nunca tivesse acontecido, esta é minha retratação de boa fé, haha", escreveu o jogador. O post de desculpas, bem como o de ataque, foram, no entanto, deletados horas depois. 
Reprodução dos posts de Isaac capturadas pelo site do jornal britânico The Daily Mail
Na linha do ataque desinformativo de Isaac a Biden, a Lupa detectou ao menos outras nove postagens que viralizaram no Facebook com conteúdo semelhante. A segunda postagem mais viral do levantamento consiste em um texto republicado 34 vezes na plataforma só no sábado, 30 de março, acusando Biden de ser "um agente do demônio" por permitir que o Dia da Visibilidade Transgênero fosse celebrado no domingo de Páscoa.
A publicação, espalhada em diversos grupos da plataforma por um único perfil de Facebook, afirma que Biden "ataca a fé cristã em todo mundo" e que Trump deve ser eleito como o próximo presidente dos EUA para "restaurar os valores cristãos" em todo o planeta.
Reprodução de posts feitos por um mesmo perfil em diversos grupos de Facebook replicando ataques a Biden

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