UOL - O melhor conteúdo
Lupa
Redes sociais estimulam automedicação e permitem venda irregular de Ozempic
26.04.2024 - 08h10
Rio de Janeiro - RJ
A reportagem foi atualizada para incluir posicionamento enviado à Lupa pela farmacêutica Novo Nordisk
26.04.2024 - 16h00
Venda irregular, desinformação e o consumo deliberado — sem a prescrição médica obrigatória —, acompanham a popularidade do medicamento Ozempic, indicado no Brasil para tratamento de diabetes tipo 2 e casos específicos de obesidade, mas frequentemente usado para o alcance de objetivos estéticos. Perigosa, a transformação do remédio em objeto de desejo conta com um facilitador: a falta de normas e fiscalização sobre o assunto nas redes sociais. 
O assunto é destaque nos nichos de emagrecimento das plataformas, com incentivo perigoso à automedicação. No TikTok, a hashtag “ozempic” acumulava mais de 86 mil publicações até 16 de abril de 2024. No Kwai, a mesma hashtag tinha, até a data, 800 postagens com mais de 8 mil visualizações. Já no Facebook há grupos sobre o tema onde usuários compartilham informações sobre como usá-lo sem acompanhamento médico. 
A semaglutida — princípio ativo presente no Ozempic —, age no controle dos níveis de açúcar no sangue e é recomendada para o tratamento da diabetes tipo 2 (mellitus). A substância age de maneira semelhante a um hormônio produzido no intestino, o GLP1. Sempre que alguém se alimenta, esse hormônio sinaliza para o cérebro que é hora de reduzir a fome e retardar o esvaziamento do estômago. Ela também melhora a ação da insulina, resultando em maior saciedade após as refeições. 
 A semaglutida foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2018, com o nome comercial Ozempic e posteriormente apresentou, em uso prolongado, resultados de perda de peso corporal em pacientes obesos
Com base nessas evidências, a substância foi aprovada nos Estados Unidos como tratamento para obesidade, em 2021, sob o nome comercial Wegovy. No Brasil, a aprovação do Wegovy só ocorreu em janeiro deste ano, e o medicamento ainda não está disponível para venda.
“Isso significa que a gente não tem ainda oficialmente os medicamentos disponíveis para o tratamento da obesidade aqui”, explica a médica endocrinologista Dhianah Santini, diretora de campanhas da Sociedade Brasileira de Diabetes, que destaca ainda a necessidade de prescrição médica. No caso do Wegovy, a indicação para o tratamento da obesidade abrange pacientes com índice de massa corporal igual ou maior que 30 kg/m2 ou 27 kg/m2 que tenham comorbidades associadas, como hipertensão, dislipidemia ou apneia.
Especialistas consultados pela Lupa apontam para a falta regulamentação nas redes sociais quanto à propaganda e comercialização de medicamentos e destacam a necessidade de controle e maior interação entre as plataformas digitais e entidades de saúde. 

Pressão estética e engajamento nas redes 

Em um vídeo no TikTok, uma mulher relata como utilizou o Ozempic para “secar” em poucos dias. Ela não se descreve como diabética e deixa claro na publicação que usou a substância por objetivos estéticos. Ela também não tem obesidade que justifique o uso, mesmo off-label, da semaglutida. Até 16 de abril de 2024, o vídeo acumulava 12,4 mil curtidas, mais de 3 mil compartilhamentos e uma centena de comentários. 
Para a endocrinologista Dhianah Santini, conteúdos assim são“anti-educativos” e não deveriam estar na plataforma. “Na minha opinião esse tipo de post deveria ser proibido, uma vez que orientar um tratamento é um ato médico que exige conhecimento, individualização e responsabilidade! É um absurdo”, diz.
Em vídeo no TikTok, uma mulher narra como emagreceu três quilos com Ozempic. Foto: reprodução.
Na mesma linha, a farmacêutica, bacharel em direito e professora Thais Jeronimo Vidal, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora dos impactos da publicidade para o uso racional de medicamentos, classifica o conteúdo como “problemático” ao incentivar o uso que se distingue daquele para qual o medicamento foi aprovado. 
“O vídeo é problemático em muitas camadas. Você observa uma pessoa magra e que, portanto, já atenderia aos padrões de beleza (também questionáveis) impostos pela indústria e que, ainda assim, relata utilizar o medicamento para perder gordura”, diz. “A protagonista não se diz diabética e relata não consumir álcool, praticar atividades físicas 5 a 6 vezes na semana e se alimentar bem. Contudo, apesar dos hábitos ditos saudáveis, atribui os seus resultados estéticos à utilização de um medicamento não aprovado para aquela finalidade. Uma relação de causalidade impossível de ser afirmada aqui”, analisa Vidal.
As redes sociais também abrem espaço para conteúdo orientando diretamente a automedicação. Em vídeo publicado no Kwai, por exemplo, um homem ensina como aplicar o Ozempic e relata quantas doses usa em seu tratamento.
Em tutorial compartilhado no Kwai, usuário orienta como usar Ozempic. Foto: reprodução.
Em grupos no Facebook dedicados a trocar dicas e experiências sobre o uso do medicamento, usuários relatam utilizá-lo sem qualquer indicação médica e compartilham dúvidas sobre seus protocolos. Em uma dessas publicações, o usuário solicita que outros membros do grupo, que não é voltado para profissionais de saúde, forneçam orientações sobre como fazer a aplicação do medicamento. 
Em grupos no Facebook, usuários compartilham suas experiências e dúvidas de como usar Ozempic por conta própria. Foto: reprodução.
“A gente se expõe a um risco muito grande quando consome medicamentos sem acompanhamento médico e com certeza esse risco é agravado quando esse consumo é estimulado pela indústria de beleza de forma direta ou indireta”, afirma a professora da UERJ. “Acho que a grande questão está no fato de que as pessoas estão vendo o medicamento como um bem de consumo quando, na verdade, ele é um insumo de cuidado e promoção da saúde”, observa.

Compra e venda irregular 

No Brasil, o Ozempic só pode ser comprado com apresentação de receita médica, que não é retida pelo estabelecimento. Perfis no TikTok e grupos de Facebook, porém, facilitam a comercialização irregular da substância. 
Na plataforma de vídeos, uma conta aberta com 345 seguidores anuncia o medicamento e outros produtos para emagrecimento. O perfil não possui nenhuma informação a respeito da origem das substâncias e menciona apenas “projeto verão” na descrição. Por mensagem no WhatsApp, uma vendedora da página confirmou que não exige receita para concluir a venda. 
Perfil no TikTok comercializa medicamentos para emagrecimento irregularmente e sem prescrição médica. Foto: reprodução.
Já em um grupo no Facebook, usuários dividem sugestões sobre onde comprar o produto sem precisar de receita. Procurado pela Lupa, um dos contatos indicados confirmou, por WhatsApp, a venda irregular. Sem se identificar, a reportagem também questionou a vendedora quanto a origem da substância. “Eu pego da farmácia com um conhecido que me passa. Eu arrumo as receitas para ele”. Na sequência, a vendedora compartilhou o vídeo de uma suposta cliente que teria recebido o medicamento. 
Ozempic é vendido irregularmente por WhatsApp. Foto: reprodução.
As resoluções RDC 44/2009 e RDC 96/2008 da Anvisa estabelecem que apenas farmácias e drogarias licenciadas podem vender e entregar medicamentos de forma remota. Qualquer outra forma de comércio de medicamentos pela internet é uma violação sanitária sujeita a sanções administrativas e, em casos de crimes contra a saúde pública — falsificações, adulterações ou comércio sem autorização ou registro —, pode resultar em processos cíveis e penais. 
“Sobre o Ozempic, é importante informar que esse é um medicamento de venda sob prescrição médica, ou seja, deve ter seu uso orientado e prescrito por profissional habilitado. A obtenção de medicamentos por parte do paciente deve ser feita sempre em estabelecimentos regularizados junto à autoridade sanitária”, reforça a agência reguladora
A compra do medicamento pelas redes sociais também traz o risco de falsificação. Em janeiro deste ano, a Anvisa identificou um lote falso do Ozempic sendo comercializado no Brasil. Outros dois casos já haviam sido notificados pelo órgão, em outubro e junho de 2023. Além do Brasil, falsificações do Ozempic já foram encontradas em 16 países até março deste ano.   
No Reino Unido, uma mulher de 45 anos sofreu convulsões e precisou ser levada às pressas ao hospital após usar uma versão falsa do Ozempic. Em outro caso, também registrado na Inglaterra, uma mulher relatou ter vomitado sangue depois de usar uma versão falsa do medicamento. No ano passado, ao menos três pessoas passaram mal com hipoglicemia nos Estados Unidos com suspeita de terem usado versões falsas do medicamento.
Em janeiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a emitir um alerta para a escassez da semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, que ainda não está disponível para venda no Brasil —, e consequentemente o crescimento de versões falsas dos medicamentos. 

Falta de regulamentação e controle

“Quando falamos das mídias sociais, entendemos que o assunto carece de uma regulamentação específica que determine de maneira mais clara as ações sanitárias e éticas nesse âmbito e imponha um limite que assegure a segurança da saúde das pessoas”, explica Roberto Canquerini, Presidente da Comissão Científica Permanente do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Canquerini explica que a Lei nº 13.021 de 8 de agosto de 2014, que trata do exercício e da fiscalização das atividades farmacêuticas no Brasil, estabelece que o farmacêutico e o proprietário dos estabelecimentos farmacêuticos devem agir solidariamente, empenhando-se para promover o uso racional de medicamentos. O texto, contudo, não traz normas específicas para redes sociais.
Atualmente, tramita no Congresso Nacional o Projeto de lei n° 723, de 2019, a proposta já aprovada pelo Senado inclui entre infrações sanitárias a ação de publicar na internet textos que possam induzir ou estimular a automedicação, a menos que estejam acompanhados de uma advertência sobre a natureza geral da informação e recomendação pela busca de um profissional competente. O PL aguarda aprovação na Câmara dos Deputados. 
A professora Thais Vidal também aponta para a falta de regulamentação nas redes sociais e destaca a necessidade de intensificar a produção e circulação de campanhas educativas sobre o assunto. "É preciso um movimento na mesma proporção [do engajamento nas redes sociais] que dê conta de informar corretamente sobre o uso do medicamento", diz.
Os termos de serviço do Facebook não descreve normas específicas sobre a publicação de conteúdos relacionados a medicamentos ou que interfiram na saúde pública. Em nota, um porta-voz da Meta, empresa dona do Facebook, informou que a plataforma proíbe a venda de medicamentos na plataforma e que usuários podem denunciar conteúdos que acreditem ser contra as Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta.
"Proibimos a venda de drogas em nossas plataformas, sejam elas não medicinais ou medicamentos. Usamos uma combinação de denúncias da nossa comunidade, tecnologia e revisão humana para aplicar nossas políticas. Também recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos que acreditem ir contra as Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta através do próprio aplicativo”, informa a nota. 
Os termos de serviço do TikTok também não descrevem qualquer tipo de regra quanto a publicação de conteúdos relacionados a medicamentos. A plataforma foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. Em caso de resposta, conteúdo será atualizado.
Os termos de serviço no kwai também não tem nenhuma regra quanto a divulgação de medicamentos na plataforma, contudo, o tópico g, parágrafo 3, descreve que são proibidos conteúdos que “representem uma ameaça à vida ou à saúde das pessoas”.
Em nota, a empresa informou que os vídeos publicados sobre o medicamento são “histórias pessoais compartilhadas por usuários sobre suas experiências com o remédio, incluindo quaisquer efeitos colaterais encontrados". E acrescenta que, no entendimento da empresa, “os vídeos não promovem ou defendem o uso do Ozempic para fins estéticos, em alinhamento com as políticas e regulamentações da plataforma que regem a promoção de medicamentos, bem como com as leis e regulamentações brasileiras”. 
O Kwai também informou que está comprometido em “manter a segurança no ambiente digital”. Para isso, contam com segurança atuando 24 horas na plataforma combinando  inteligência artificial com análise humana para analisar e remover conteúdos que infrinjam as diretrizes da comunidade. “A plataforma ainda disponibiliza recursos de ‘denúncia’ em sua configuração, com o objetivo de incentivar também a comunidade a sinalizar conteúdos que possam ser danosos ao seu ecossistema”, complementa a nota.

O que diz a Novo Nordisk

Em posicionamento enviado no fim da tarde desta sexta-feira (26) à Lupa, a Novo Nordisk, que produz o Ozempic, informou que o medicamento "não possui indicação aprovada pelas agências regulatórias nacionais e internacionais para o tratamento de obesidade" e que o Ozempic foi aprovado pelas autoridades regulatórias do Brasil em agosto de 2018 para o tratamento do diabetes tipo 2 e comercializado a partir do primeiro semestre de 2019. "É importante ressaltar que o medicamento deve ser utilizado e comercializado sob prescrição médica, embora não haja necessidade de retenção da receita pela farmácia", informou a empresa.
A farmacêutica também encaminhou outro posicionamento específico sobre "uso e comercialização de semaglutida em apresentações irregulares no Brasil". No documento, a empresa afirmou que o princípio ativo semaglutida — presente no Ozempic — "não foi desenvolvido, em nenhum lugar do mundo, para uso em formato injetável em frascos, em cápsulas orais, pellets absorvíveis, fitas ou chip, conforme tem sido divulgado e associado erroneamente aos medicamentos da Novo Nordisk".
Ainda disse desconhecer "a origem das matérias-primas e a forma de fabricação desses produtos", ressaltando que, "de acordo com a Anvisa, medicamentos irregulares não oferecem garantias de eficácia, segurança e qualidade exigidas para produtos sob vigilância sanitária, podendo representar risco de dano e ameaça à saúde".
A Novo Nordisk também declarou que não fornece ou autoriza "o fornecimento de semaglutida a nenhuma farmácia de manipulação ou outra fabricante". E reiterou que seus medicamentos que têm como princípio ativo a semaglutida "foram estudados e devidamente testados para o tratamento seguro de populações e patologias específicas". "Portanto, sua segurança está garantida apenas quando as moléculas registradas junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são utilizadas conforme as indicações de uso apresentadas em bula."
Por fim, a farmacêutica recomendou que os pacientes comprem seus medicamentos apenas em farmácias devidamente licenciadas e que cumpram as exigências da Anvisa. E alertou para que desconfiem de "sites e canais não licenciados pela Anvisa para comercialização de medicamentos e que usam os nomes das marcas e/ou adotam aplicativos de vendas e redes sociais para ofertar os produtos"; "embalagem do medicamento visivelmente alterada, em idioma estrangeiro, com aparência farmacêutica (apresentação) diferente da registrada e com informações incorretas sobre o produto"; e "preços muito abaixo dos aprovados pelo governo".

Leia mais 






Clique aqui para ver como a Lupa faz suas checagens e acessar a política de transparência
A Lupa faz parte do
The trust project
International Fact-Checking Network
A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos.
A Lupa está infringindo esse código? FALE COM A IFCN
Tipo de Conteúdo: Reportagem
Conteúdo investigativo que aborda temas diversos relacionados a desinformação com o objetivo de manter os leitores informados.
Copyright Lupa. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

Leia também


17.06.2024 - 19h35
Direito das Mulheres
Senadores usam religião e desinformação para defender o PL do aborto

O Plenário do Senado foi palco de falas distorcidas, contraditórias e com forte teor religioso sobre o direito das mulheres ao aborto legal, mesmo em caso de estupro. Na "Sessão de Debates sobre assistolia fetal para interrupção de gravidez”, que só teve participantes contrários ao aborto, senadores espalharam desinformação sobre o PL do Aborto.   

Carol Macário
29.05.2024 - 18h35
Saúde da mulher
Assistolia fetal: procedimento em pauta no STF gera onda de desinformação nas redes

O impasse diante do julgamento de uma ação no STF sobre a norma do CFM que dificulta o aborto legal tem aumentado a circulação de posts com potencial desinformativo sobre o aborto, diz estudo da FGV. As postagens disseminam informações distorcidas sobre a técnica conhecida como assistolia fetal, usada em casos acima de 22 semanas de gravidez.

Ítalo Rômany
29.05.2024 - 11h00
Internacional
Com 117 canais de Telegram e 15 perfis no X, Rússia busca aliados latinos

A migração de russos à América Latina cresceu desde o início da guerra na Ucrânia. Com ela, também cresceu a propaganda russa na região. Apostando em mensagens feitas em português e espanhol, Moscou utiliza canais no Telegram e no X para tratar EUA e OTAN como ameaças, justificar a guerra na Ucrânia e se promover como bastião da justiça mundial.

Fernando Trincado
28.05.2024 - 12h02
Internacional
Rússia usa X e Telegram para mentir e atacar vencedor do Oscar na América Latina

'20 dias em Mariupol' irritou a diplomacia russa e é alvo de desinformação que circula na América Latina. Ao atacar o premiado documentário, Moscou quer negar o inegável. Diz que o hospital materno-infantil que atacou estava vazio, repetindo tática desinformativa que marcou ações em Bucha e em torno do ato terrorista no Crocus Hall.

Catalina Roig
27.05.2024 - 17h24
Teorias conspiratórias
De Chuva artificial a lockdown climático: posts geram caos sobre enchentes no RS

Teorias conspiratórias sobre as enchentes no Rio Grande do Sul não param de circular nas redes: desde posts afirmando que as chuvas foram "fabricadas em laboratórios" e pulverizadas por aviões, até um complô global. Publicações alarmistas disseminam, sem provas, que os próximos passos dessa conspiração serão desapropriação e "lockdown climático".

Ítalo Rômany
Lupa © 2024 Todos os direitos reservados
Feito por
Dex01
Meza Digital