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Facebook mantém no ar fakes sobre eleições 2022 derrubadas pelo TSE
29.04.2024 - 12h31
Porto Alegre - RS
Publicações com milhares de compartilhamentos e visualizações, e que possuem informações falsas sobre as eleições de 2022, seguem online no Facebook mesmo após decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de derrubar esses mesmos conteúdos em diferentes plataformas. Levantamento feito pela Lupa indica que pelo menos quatro posts virais com dados inverídicos sobre fraudes no pleito continuam no ar e, juntos, somam mais de 274 mil visualizações.
A apuração foi feita a partir do relatório divulgado pela Comissão de Assuntos Judiciários da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos sobre as decisões referentes à retirada de conteúdos ilegais das redes sociais. Em reportagem publicada na segunda-feira (22), a Lupa constatou que o documento traz 37 decisões judiciais comprovadamente falsas ou enganosas
Esta nova apuração identificou que, embora o TSE tenha ordenado a derrubada de links específicos em redes sociais como Twitter, Facebook, Instagram, YouTube, entre outras, o mesmo conteúdo foi postado, na mesma época, em outras publicações no Facebook e permanece acessível até hoje. Além disso, em um dos casos, o link alvo do TSE não foi excluído.

Interferência de Biden e CIA

É o caso do post alegando que o presidente dos Estados Unidos Joe Biden e a CIA (órgão de inteligência do governo norte-americano) estão envolvidos “na fraude das eleições brasileiras”. O TSE determinou a remoção de postagens no Twitter, Facebook, Instagram, YouTube, Kwai, TikTok e Gettr, em 4 de novembro de 2022. Entretanto, uma publicação com o mesmo conteúdo, postado em 3 de novembro de 2022, segue ativa no Facebook e conta com mais de 7,9 mil compartilhamentos e 112 mil visualizações.
A informação é falsa porque o programa da Fox News, na verdade, trata de uma suposta conversa que teria acontecido em 2021, em que o diretor da CIA, William Burns, aconselha o então presidente Jair Bolsonaro (PL) a aceitar os resultados da eleição presidencial. A conversa foi tema de reportagem da Reuters e, segundo o texto, a preocupação de Burns era que Bolsonaro estivesse semeando questionamentos para seguir o exemplo de Donald Trump, que lançou uma série de dúvidas nas eleições americanas de 2020. 

Fraude em auditoria

O TSE também havia determinado, em 26 de dezembro de 2022, a remoção de um conteúdo - no Twitter, YouTube e em outros dois sites - indicando que o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas, teria fraudado o relatório sobre a auditoria das urnas. A informação é falsa. Os documentos foram apresentados por Dantas em outubro de 2022, com 74,5% dos Boletins de Urna (BUs) e estão disponíveis para consulta no site do TCU.
O mesmo conteúdo ainda pode ser encontrado no Facebook. O post, datado de 5 de dezembro de 2022, possui 95 mil visualizações. 

Dossiê de marqueteiro argentino

Também está ativo no Facebook um link que consta no relatório divulgado pelos congressistas norte-americanos e não foi derrubado. Trata-se de uma live do empresário e marqueteiro argentino Fernando Cerimedo, considerado "estrategista digital" do presidente Javier Milei, no qual repercute dossiê enganoso abordado em outras decisões e acusa o sistema eleitoral brasileiro de modificar arquivos e não realizar auditorias. As informações da live foram desmentidas pela Lupa
A publicação, de 5 de novembro de 2022, conta até o momento com 2,3 mil compartilhamentos e 46 mil visualizações. A decisão pela derrubada do link foi emitida pelo TSE em 8 de novembro de 2022.

Relatório do Ministério da Defesa

Também circula no Facebook um vídeo da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) em que ela fala sobre o relatório das Forças Armadas referente às urnas eletrônicas. No post, ela coloca em suspeita o processo eleitoral, mesmo sem apresentar provas. Em decisão de 10 de novembro de 2022, o TSE determinou a derrubada de 38 links com o vídeo no Twitter e no TikTok.
Porém, no mesmo dia, o vídeo foi publicado pelo menos outras duas vezes no Facebook. Um dos posts possui 15 mil visualizações (imagem abaixo) e outro tem 6,4 mil visualizações. O relatório do Ministério da Defesa não apontou nenhuma fraude nas eleições.

Legislação

Em todos os casos citados nesta matéria, a Justiça Eleitoral baseou seu entendimento pela derrubada dos links no artigo 2º da Resolução do TSE 23.714/2022, que veda a divulgação ou compartilhamento de fatos sabidamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral; no artigo 296 do Código Eleitoral, que prevê detenção e pagamento de multa a quem promover desordem que prejudique os trabalhos eleitorais; e no artigo 286, do Código Penal, que prevê penalidades a quem incitar, publicamente, a prática de crime.

O que diz a Meta

Procurada pela Lupa, a Meta informou que não vai se manifestar sobre os pontos citados nesta reportagem.

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