UOL - O melhor conteúdo
Lupa
Fakes do movimento anti-LGBT+ buscam opor educação sexual e segurança infantil
A falsa dicotomia, ou seja, a construção — muitas vezes proposital — de um falso dilema que se caracteriza pela apresentação de duas alternativas supostamente excludentes entre si, é uma técnica cada vez mais comum no mundo da desinformação, sobretudo quando o alvo das notícias falsas é a comunidade LGBT+. 
Nesta segunda reportagem da série que se debruça sobre as narrativas desinformativas e odiosas que circulam nas redes sociais e vem sendo publicada nesta semana do Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o consórcio internacional formado por Lupa, Univision, Data Crítica e o Instituto Democracia Digital das Américas revela como a ideia de oferecer educação sexual a crianças e adolescentes tem sido encarada por uma parte do continente como um risco ao bem-estar deles, um tipo de doutrinamento dos jovens em favor da homossexualidade, transsexualidade ou mesmo um assédio a seus corpos.
Com a ajuda do CrowdTangle, ferramenta mantida pela Meta que permite estudar posts feitos no Facebook, a reportagem reuniu e analisou um total de 1.334 postagens que foram ao ar entre os dias 1º de janeiro e 1º de abril de 2024 mencionando  — em português, inglês, e espanhol — os termos "doutrinar", "doutrinamento" ou "doutrinação" junto com a palavra "crianças". 
Ao longo dos 92 dias de observação, o levantamento indicou que o Facebook recebeu, em média, um conteúdo que misturava desinformação e ódio contra as pessoas LGBT+ e as futuras gerações a cada duas horas.
Na mostra, que colheu mais de 41 mil interações (uma média de 31 por post), há ataques a educadores e livros que abordam questões de gênero. Há ataques a entidades políticas que apresentam propostas sobre educação sexual e farto apoio a quem quer proibir conversas sobre ideologia de gênero perto de crianças. E há verdadeiras rebeliões online contra influenciadores digitais que mostram ter visão menos conservadora sobre as pessoas LGBT+ — no caso do Brasil, chama a atenção os ataques ao youtuber Felipe Neto, falsamente acusado de pedofilia.
Na amostra analisada pela reportagem, os perfis e as páginas que publicam falsas dicotomias que opõem a segurança das crianças ao ensino de educação sexual, como se as duas opções fossem excludentes entre si, parecem acreditar que há uma conspiração que não se importa com os jovens. Para esse grupo, esse movimento imaginário que pode dar origem a uma geração de adultos LGBT+ precisa ser denunciado via instrumentos como abaixo-assinados e detido. Posts no Facebook parecem ser uma das armas nessa batalha.
No período de análise, 1.131 páginas únicas de Facebook publicaram — em ao menos um dos quatro idiomas analisados — conteúdos sugerindo que há, nas Américas, um doutrinamento de jovens para o universo LGBT+. Esse material pode ter alcançado 133 milhões de pessoas (soma dos seguidores de todas essas páginas), uma audiência equivalente à população do México ou três vezes à da Argentina.
Não é pouco. Seja em português, inglês ou espanhol, os posts coletados no primeiro trimestre de 2024 mostram que, independentemente do país ou do idioma, centenas de entidades e milhares de indivíduos usam o Facebook para denunciar que a proximidade  — mesmo que seja apenas cultural ou acadêmica — das crianças com o mundo LGTBQ+ coloca em risco a "família tradicional" e/ou o "desenho original da família".
Em algumas publicações, a reportagem encontrou duras e jamais comprovadas associações entre a oferta de educação sexual integral e supostos casos de pedofilia. No Chile, grupos de pais tentaram fazer greve e deixar de levar crianças à escola. A falsa dicotomia aqui, que opõe o entendimento das questões de gênero à segurança física dos jovens, carece, assim como as demais, de qualquer sustentação factual.

'Predadores estão lambendo os beiços'

A postagem mais repetida no Facebook em toda amostra analisada está em inglês e diz o seguinte: "Já é hora de a os Estados Unidos olhar para a feia verdade: predadores de crianças estão lambendo os beiços, com a perversão sexual que ocorre com os pequenos nas escolas primárias. É proibido fazer doutrinação sexual em crianças, a menos que ela venha de um homem com maquiagem e vestido, fingindo ser mulher".
O texto do post ainda afirma que "estatísticas recentes indicam que as crianças podem estar em maior risco do que se pensava anteriormente" e usa maiúsculas para destacar que "as crianças da América não devem ser sacrificadas por nenhuma ideologia idiótica". O conteúdo surgiu no Facebook em 19 de fevereiro deste ano e foi repostado por pelo menos 23 páginas em cinco dias. 
A postagem desconsidera, no entanto, dados importantes e irrefutáveis. O National Child Abuse and Neglect Data System, que coleta dados de maus-tratos e abusos registrados contra crianças em todos os estados dos Estados Unidos, indica, por exemplo, que, ao contrário do que diz o texto, o número de casos de abuso infantil está em queda nos Estados Unidos desde 2018. Além disso, 76% dos abusadores são, segundo o  mesmo sistema, parentes da vítima. Não há na base de dados que serve de referência para o debate em território americano qualquer referência a educadores como sendo uma categoria profissional significativa entre os abusadores de crianças.
Além disso, já há dados concretos que demonstram que a oferta de educação sexual resulta em mais entendimento sobre o assunto, mais conhecimento sobre os métodos de se proteger e, em consequência, mais denúncias. O Ministério Público Tutelar da cidade de Buenos Aires, por exemplo, informa que 80% das crianças e adolescentes que denunciaram abusos o fizeram depois de uma aula de educação sexual ocorrida na escola.
Mas as redes sociais e os movimentos anti-LGBT+ preferem não levar esses dados em consideração. Na Flórida, nos EUA, a situação ficou tão grave que foi sancionada uma lei que impede as escolas de oferecer qualquer tipo de conteúdo sobre orientação sexual ou identidade de gênero a crianças até o terceiro ano do ensino fundamental. A legislação, informalmente batizada como ""Don't Say Gay" (Não diga gay), também acabou impulsionando outras leis estaduais semelhantes em outras partes dos Estados Unidos. No Alabama e no Arkansas, a proibição chegou a ser estendida e dura até o 5º ano escolar.
O post da amostra analisada que mais viralizou em português vai um passo além da publicação em inglês. Consiste num vídeo originalmente criado pela deputada federal Amália Barros (PL-MT) e compartilhado por 12 perfis de Facebook — somando mais de 66 mil seguidores — que mostra uma servidora trans fazendo uma breve palestra para uma turma de crianças sobre o fato de ter nascido homem e, hoje, usar vestido. "Não importa se você aceita ou não aceita (as pessoas LGBT+), você deve respeitá-los", pontua a jovem ao final da gravação. 
Mas as postagens feitas no Facebook a partir do vídeo da deputada foram no sentido oposto do que a servidora pregava. "Absurdo! Querem de toda forma doutrinar as nossas crianças nas escolas (...) Eu como deputada federal por Mato Grosso não permitirei", dizia o texto de Amália.
Blogs conservadores entraram na história, descobriram o nome da escola e da servidora e pressionaram o secretário municipal de Educação de Várzea Grande (MT) para que ele tomasse uma medida. Nesse meio tempo, a servidora trans ficou — com seu rosto e nome — à exposição, no olho do furacão digital. O secretário Silvio Fidelis, por sua vez, saiu em defesa da servidora e disse que a palestra dela tinha sido sobre preconceito, discriminação e respeito.

Ataques à OMS e um movimento que nasce no Peru

Em espanhol, o post que mais engajou no trimestre foi sobre o suposto doutrinamento de crianças para aparentemente se tornarem indivíduos LGBT+. No vídeo, um médico aparece lendo e criticando (em inglês) as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre educação sexual infantil
Compartilhado 13 vezes em apenas seis minutos num só dia, o post dá espaço a um profissional de saúde que classifica as diretrizes da OMS de "assustadoras", sem fazer qualquer menção ao fato de que suas falas tiram várias frases do documento da organização internacional de seu devido contexto. 
O médico diz, por exemplo, que a OMS recomenda masturbação para crianças de zero a 4 anos. Uma leitura atenta do texto original mostra que a entidade apenas faz uma constatação de que é nessa idade que os humanos começam a explorar seus corpos pela visão e toque. 
Outra falha de informação nesse caso tem a ver com a história do médico em si. Quem aparece no vídeo é o canadense Mark Trozzi, suspenso pelo colégio de profissionais de saúde de Ontário por posições anti-éticas e anti-científicas durante a pandemia de Covid-19. Para o tribunal que avaliou a suspensão de sua licença, Trozzi teve uma "conduta vergonhosa, desonrosa ou anti-profissional e não atendeu ao padrão de prática da profissão em relação às suas declarações sobre vacinação, tratamentos e medidas de saúde pública para a Covid-19 em publicações nas redes sociais, em seu site e em entrevistas". Trozzi transformou-se num anti-vacina e criticou o uso de máscaras em locais públicos. Ainda se popularizou — nas redes sociais e nos aplicativos de mensagem — pela promoção de desinformação médica.
Por fim, chama atenção na base de postagens em espanhol coletada a presença ostensiva do movimento "Con mis hijos no te metas". Criado no Peru em 2016, ele já tem braços em inglês (Don't mess with our kids) e em português (Não se meta com meus filhos). Seus posts, assim como ocorre com os demais que promovem a falsa dicotomia da educação sexual e da segurança das crianças, costumam usar imagens simples, com frases em cores rosa e azul.
Em agosto do ano passado, o movimento pagou por uma série de anúncios na Meta promovendo a ideia de que "as escolas devem ensinar verdades biológicas, não ideológicas". Na biblioteca de anúncios digitais da big tech, a reportagem localizou ao menos 120 anúncios com a frase "conmishijosnotemetas" entre 1º de abril de 2023 e 1º de abril de 2024. 
Membro do movimento Con Mis Hijos No Te Metas já foram flagrados falseando diversas informações para gerar comoção nas redes sociais peruanas e convocar marchas contra o ensino sexual integral. O grupo mentiu, por exemplo, ao dizer que livros usados em turmas do sexto ano do Peru estariam dando a um personagem masculino o protagonismo da história infantil Chapeuzinho Vermelho.
Em junho de 2023, o fundador do movimento, José Luis Linares Cerón, foi denunciado formalmente por sua própria filha por abuso sexual. Ela teria engravidado dele aos 12 e aos 16 anos. 
Em nota enviada por e-mail, a Meta informou que “não permite discurso de ódio em suas plataformas e os Padrões da Comunidade proíbem qualquer conteúdo que ataque pessoas com base em suas características”. “Isso inclui etnia, nacionalidade, religião ou orientação sexual, classe social, gênero, identidade de gênero, doença ou deficiência. Revisamos conteúdo por meio da combinação de tecnologia de Inteligência Artificial e equipes humanas. Também incentivamos as pessoas a denunciarem conteúdos e contas que acreditem violar nossas políticas através das ferramentas disponíveis dentro dos próprios aplicativos”, destacou a empresa.

LEIA MAIS


Esta é uma investigação jornalística realizada por elDetector, Lupa, Animal Político, Data Crítica e DDIA, graças ao apoio do Consórcio de Apoio ao Jornalismo Independente na América Latina (CAPIR, na sigla em espanhol), liderado pelo Institute for War and Peace Reporting (IWPR).
Clique aqui para ver como a Lupa faz suas checagens e acessar a política de transparência
A Lupa faz parte do
The trust project
International Fact-Checking Network
A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos.
A Lupa está infringindo esse código? FALE COM A IFCN
Tipo de Conteúdo: Reportagem
Conteúdo investigativo que aborda temas diversos relacionados a desinformação com o objetivo de manter os leitores informados.
Copyright Lupa. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

Leia também


18.05.2024 - 12h15
Tragédia no Sul
Doações, resgates e alarmismo dominam onda de fakes sobre enchentes no RS

A crescente onda de desinformação sobre as enchentes no Rio Grande do Sul tem se caracterizado por três eixos principais: doações, resgates e alarmismo. Muitas das fakes já checadas também envolvem, em maior ou menor grau, a atuação — ou falta dela — dos governos na crise e a generalização de problemas isolados. Reportagem detalha e analisa o tema. 

Carol Macário
17.05.2024 - 14h11
Enchentes no RS
Políticos desinformam sobre tragédia no RS e atiçam base contra imprensa e opositores

Políticos têm usado as redes sociais para fazer coro à desinformação sobre a tragédia climática no RS, descredibilizar o trabalho da imprensa e atacar as instituições estatais. Levantamento da Lupa mostrou que, entre 1 e 15 de maio, parlamentares disseminaram informações descontextualizadas ou fakes já desmentidas, especialmente sobre doações.

Carol Macário
17.05.2024 - 10h01
Arco-íris sob ataque
201 projetos anti-LGBT+ chegaram às Assembleias Legislativas do Brasil desde 2020

A quarta e última reportagem da série sobre a desinformação anti-LGBT+ nas Américas mostra que 201 projetos anti-LGBT+ chegaram às Assembleias Legislativas do Brasil desde 2020. Destes, sete viraram lei – e uma dessas leis foi invalidada pelo STF. Amazonas, Rondônia, Paraíba e Espírito Santo têm restrições legais ativas contra os LGBT+

Cristina Tardáguila
16.05.2024 - 10h07
Arco-íris sob ataque
Estratégia “copia e cola” espalha projetos de lei anti-LGBT+ pelo Brasil

A linguagem não-binária, a participação de trans em esportes e todas as atividades pedagógicas relacionadas a sexo ou gênero são alvo de dezenas de projetos de lei país afora. Muitas dessas propostas chegam a ter um índice de mais de 80% de semelhança na redação. Esta é a terceira reportagem da série sobre a desinformação anti-LGBT+ nas Américas

Cristina Tardáguila
15.05.2024 - 10h06
Arco-íris sob ataque
Fakes do movimento anti-LGBT+ buscam opor educação sexual e segurança infantil

Posts que sugerem que pedófilos 'lambem os beiços em escolas primárias' e que pedem punição a pessoas trans viralizam em português, inglês e espanhol, sem levar em consideração dados factuais. Esta é a segunda reportagem da série sobre a desinformação anti-LGBT+ nas Américas

Cristina Tardáguila
Lupa © 2024 Todos os direitos reservados
Feito por
Dex01
Meza Digital