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IA, clima e urnas: estudo aponta riscos de desinformação para eleições
20.05.2024 - 18h17
Rio de Janeiro - RJ
Brasil terá eleições municipais em 6 de outubro deste ano (Foto: Divulgação)
O avanço da inteligência artificial (IA) preocupa pesquisadores que acreditam que a tecnologia possa ser utilizada em campanhas desinformativas, ampliando as narrativas falsas e manipulando a opinião pública, especialmente durante as eleições municipais de 2024. Essa é uma das conclusões do relatório “Election Integrity in the Digital Age: Online Risks and Recommendations for the Brazilian Municipal Elections” (“Integridade eleitoral na era digital: riscos e recomendações on-line para as eleições municipais brasileiras”, na tradução para o português), produzido pelo projeto Mídia e Democracia, uma iniciativa da FGV em parceria com a União Europeia.
“As ferramentas orientadas por IA podem criar e disseminar deepfakes e outras formas sofisticadas de conteúdo enganoso sobre candidatos e outras figuras públicas que são difíceis de detectar e desmascarar“, alerta o estudo, ao qual a Lupa teve acesso com exclusividade. 
Embora a IA seja um ponto de preocupação, ela também aparece nas recomendações dos pesquisadores como um recurso a ser usado justamente para combater a desinformação. O relatório recomenda que as plataformas digitais implementem ferramentas avançadas que usam inteligência artificial para detectar e sinalizar a desinformação nas eleições. A pesquisadora do Democracy Reporting International, Beatriz Saab, uma das responsáveis por escrever o relatório, ressalta ainda a importância da revisão humana nesse processo.
“A gente discute uma combinação de modelos de IA com o olhar humano. Na moderação de conteúdo pelas plataformas, poderia ter uma primeira identificação de conteúdo ilegal, nocivo, por meio de modelos de inteligência artificial tendo, claro, um time que vai revisar”, explica Saab.
Como exemplo, a pesquisadora destaca um caso que ocorreu na Alemanha, divulgado no início do ano pelo jornal The Guardian. O governo alemão encomendou um estudo que conseguiu localizar uma rede de robôs online no X (antigo Twitter) que disseminava desinformação. Especialistas identificaram  essas publicações ao utilizarem um software de monitorização especializado.

Mudanças climáticas e fraude nas urnas  

Além da IA, o documento aponta outros cinco riscos envolvendo a disseminação de desinformação durante o processo eleitoral. O relatório cita, por exemplo, a disseminação de informações falsas sobre questões climáticas, um tema que voltou a ser muito debatido nas redes sociais nas últimas semanas após as enchentes no Rio Grande do Sul. ”Narrativas enganosas geralmente minimizam a gravidade do desmatamento na Amazônia, deturpam os impactos do agronegócio sobre a biodiversidade e espalham falsidades sobre os direitos indígenas à terra e as regulamentações ambientais", destaca o estudo.
Existem ainda desinformações que já apareceram em eleições passadas e que os pesquisadores acreditam ser um risco novamente para o próximo pleito em 2024. É o caso de conteúdos falsos envolvendo o processo eleitoral. As narrativas falsas sobre urnas eletrônicas, citadas no relatório, vêm sendo desmentidas pela Lupa desde 2018. O documento lembra que esse tipo de campanha tem como objetivo colocar em dúvida a credibilidade das eleições. 
Outros temas que aparecem como risco dizem respeito à saúde pública e direitos ligados a liberdades. Os pesquisadores lembram que a pandemia da Covid-19 e as desinformações que foram disseminadas na época continuam a influenciar o público. Também indicam que a utilização de informações falsas para criar uma insegurança na liberdade de expressão, escolha e privacidade é comum durante o período eleitoral. Por fim, o sexto risco é o uso da desinformação como estratégia política para ganhar votos. 

Recomendações

Além de indicar os possíveis riscos, o relatório também faz recomendações para as autoridades eleitorais, plataformas e organizações. 
Para as autoridades, o estudo indica a necessidade de o poder público capacitar organizações e agentes locais para conter o avanço da desinformação. Além disso, ressalta a importância do monitoramento do impacto de todas as iniciativas criadas para combater publicações falsas, incluindo a elaboração de relatórios para medir sua eficácia.    
Já as recomendações para as plataformas envolvem o aumento da transparência da moderação de conteúdo. “Elas devem compartilhar publicamente detalhes sobre o número e o tipo de publicações retiradas do ar e a justificativa para essas ações”, destaca o relatório. Além disso, os pesquisadores também recomendam que as big techs ajustem seus algoritmos para ajudar a reduzir a disseminação de conteúdos sinalizados como falsos. 
Por fim, o relatório ressalta a importância do trabalho realizado pelas organizações de verificação de fatos e da sociedade civil, que, segundo o estudo, devem seguir monitorando as tendências de desinformação em tempo real durante as eleições e continuar os esforços para melhorar a transparência das plataformas, respectivamente. 

Evento

Os resultados do estudo serão apresentados em detalhes no 1º Seminário Internacional: Inteligência Artificial, Democracia e Eleições, que ocorre nesta terça (21) e quarta-feira (22), em Brasília (DF). O encontro está sendo promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral do Brasil (TSE) e a Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV Comunicação), com o apoio da Delegação da União Europeia no Brasil e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Mídia e Democracia
O projeto Mídia e Democracia é uma iniciativa da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV ECMI) com o apoio da Delegação da União Europeia no Brasil para o fortalecimento da democracia brasileira. A Lupa faz parte dessa parceria, assim como o centro alemão de análise do debate público Democracy Reporting International (DRI). 

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Nota: Este conteúdo faz parte do projeto Mídia e Democracia, produzido pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV ECMI) e a FGV Direito Rio em parceria com Democracy Reporting International e a Lupa. A iniciativa é financiada pela União Europeia.
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