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De Chuva artificial a lockdown climático: posts geram caos sobre enchentes no RS
27.05.2024 - 17h24
João Pessoa - PB
Teorias conspiratórias — que beiram o absurdo — sobre as enchentes no Rio Grande do Sul não param de circular nas redes. Essas teorias vão desde posts afirmando que as chuvas foram "fabricadas em laboratórios" e pulverizadas por aviões a complô global, liderado pela China, cujo objetivo é o de instaurar uma nova ordem mundial. Publicações alarmistas disseminam ainda, sem provas, que os próximos passos dessa conspiração serão desapropriação e um "lockdown climático". 
"Alguns itens como desapropriação, restrições de uso de terra, zonas de exclusão, Lockdown Climático, realocação em massa, obrigatoriedade de vacinação? Sim, isso mesmo controle social. E o Estado do Rio Grande do Sul é o primeiro e não o último Estado da América Latina", diz uma das publicações disseminadas nas redes.
Além do caos instaurado, as publicações refutam a crise climática criando factoides, como a de que as chuvas foram manipuladas em laboratórios e pulverizadas por aviões. Segundo as alegações conspiratórias, isso faria parte de uma nova ordem mundial patrocinada pela Fundação norte-americana Rockefeller, criada em 1913 com o objetivo de promover, no exterior, o estímulo à saúde pública, o ensino, a pesquisa e a filantropia. Dentre as publicações, um vídeo que circula nas redes mostrando nuvens no céu e um suposto avião voando entre elas. "Olha como é que tá. Olha pro lado, como já tá fechando [o tempo]".  Uma das legendas chega a afirmar: "Estão brincando com Deus, depois não reclamem". 
Post afirma que chuvas no Rio Grande do Sul foram manipuladas por "nucleação de nuvens". Foto: Reprodução
O professor Augusto José Pereira Filho, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), explica que os vídeos não têm qualquer credibilidade. As chuvas artificiais, mencionadas nos registros, são conhecidas há mais de décadas, porém com poucos resultados comprovados. O método de semeadura de nuvens vai desde o uso de sais até gotículas de água injetadas em nuvens por queimadores, foguetes e aviões.
A Lupa reuniu as principais teorias conspiratórias que estão circulando sobre o tema, confira:

Chuvas artificiais

Mensagens conspiratórias nas redes colocam em xeque os reais motivos das enchentes no Rio Grande do Sul. A principal teoria é de que as chuvas foram fabricadas artificialmente por um sistema chamado "nucleação de nuvens". 
"NUCLEAÇÃO DE NUVENS= CHUVA ARTIFICIAL. JÁ OUVIRAM FALAR NISSO? E SENHORES, É SÓ PESQUISAR. FUNCIONA MESMO. TERIA ALGUMA LIGADA ÀS ENCHENTES?", diz uma das publicações. 
Um outro vídeo, com mais de 46 mil visualizações no TikTok, também afirma que as fortes chuvas que começaram a cair no Sul foram produzidas artificialmente. "Grande aeronave acaba de passar em baixa altitude. Em seguida, fortes chuvas começam", diz a legenda.
Post enganoso com mais de 46 mil visualizações no TikTok
Especialistas em meteorologia e geofísica consultados pela reportagem refutam essa teoria. 
O professor Carlos Augusto Morales Rodriguez, do Departamento de Ciências Atmosféricas da IAG/USP, explica que os procedimentos de semeadura existentes visam não apenas  antecipar a chuva, mas também inibir a formação de granizo e formar cristais de gelo/neve. 
O processo de semeadura consiste em nuclear a nuvem com gotículas de água bem pequenas ou partículas muito pequenas de iodeto de prata. Ao lançar as partículas dentro da nuvem com um avião que pulveriza as gotículas, espera-se que elas auxiliem no processo de colisão seguido de coalescência — quando as gotículas pequenas pulverizadas são coletadas pelas gotículas grandes no interior da nuvem, antecipando ou acelerando seu crescimento. Se elas atingem tamanhos da ordem de milímetros, precipitam. "Este procedimento fica restrito a nuvens quentes, pois só tem água líquida. Nuvens mistas e frias (que só tem gelo), as gotículas injetadas poderiam evaporar e alimentar o crescimento dos cristais de gelo por difusão de vapor e o tamanho atingido não seria muito grande para evaporar", lembra o professor Carlos Rodriguez. 
Esse tipo de técnica chegou a ser usada no Ceará para amenizar o histórico de secas na década de 1980. Entretanto, o projeto foi encerrado "pelos custos envolvidos e começou-se a verificar que não era tão efetivo”, explica Meiry Sakamoto, gerente de meteorologia da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). “Se fosse a solução teria seca em algum lugar? Na prática, é complicado comprovar que essa nucleação foi o que causou a chuva", diz. 
O professor Augusto Jose Pereira Filho explica que as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul foram produzidas por um evento climático, onde a junção do ar muito frio e instável na alta atmosfera com o ar muito quente e úmido próximo da superfície, proveniente da Amazônia gerou aglomerados de tempestades severas. "A energia liberada por tais sistemas é da ordem de centenas a milhares de bombas atômicas combinadas. Ou seja, não haveria como o homem causar essa catástrofe", reforça.
Ele também ressalta que as chuvas no Sul estão associadas ao fenômeno El Niño. "Elas começaram a afetar o Rio Grande do Sul no ano passado e causaram um aumento do nível da água nos solos. No fim de abril deste ano, nestas condições, com um outro período de chuva prolongado, a água da chuva não infiltrou e escoou para os rios e depressões e resultou em enchentes, alagamentos e inundações", explica. 
As chuvas observadas no Rio Grande do Sul foram em sua maioria, ocasionadas por nuvens do tipo cumulonimbus, que são nuvens que naturalmente já provocam chuvas intensas, com rajadas de vento, raios e trovões, e praticamente, impossíveis de serem sobrevoadas por aviões para realizando nucleação artificial
– Meiry Sakamoto, gerente de meteorologia da Funceme.
Para além das enchentes do Rio Grande do Sul, esse tipo de teoria circula com bastante frequência quando há eventos extremos como esse. Em Dubai, posts afirmaram que as fortes chuvas que atingiram a região em abril deste ano foram manipuladas por meio da técnica de semeadura de nuvens
Post mistura versículos da Bíblia e afirma que chuvas no RS é parte de conspiração mundial
Outros posts também mencionam que as chuvas foram manipuladas por um sistema de antenas chamado Haarp. A Lupa explicou em reportagem anterior que essa alegação é enganosa. Em contato por e-mail, o Instituto Geofísico da Universidade do Alasca — que administra o projeto Haarp — explicou que as ondas de rádio nas faixas de frequência que o Haarp transmite não são absorvidas pelos níveis de camada da atmosfera que produzem o clima na Terra. Portanto, não teriam como controlar ou manipular qualquer atividade climática.

Nova ordem mundial

Mensagens alarmistas que circulam no WhatsApp afirmam também que as enchentes no Rio Grande do Sul fazem parte de um pacto assinado em 2013 com a Fundação Rockefeller, cujo objetivo é o de instaurar uma nova ordem global. 
Post afirma que nova ordem mundial faz parte de plano instituído pela Fundação Rockefeller
O projeto Cidades Resilientes, lançado em 2013 pela Fundação Rockefeller, visou ajudar municípios participantes a planejar soluções para enfrentar desafios relacionados à urbanização e alterações climáticas. O projeto, conhecido como "100 Resilient Cities (100RC)", forneceu financiamento e apoio em ferramentas, serviços e assistências técnica às 100 cidades participantes. 
Em 2019, quando a iniciativa 100RC chegou ao fim, a rede de cidades se mobilizou e lançou um novo projeto. "Nosso trabalho está amplamente organizado em três pilares: Resiliência Climática, Circularidade e Equidade", explica o site do programa. Ao contrário do que o post enganoso afirma, não há qualquer menção sobre a criação de uma nova ordem mundial que irá dominar as cidades para implantar um novo sistema econômico e político. 
A cidade de Porto Alegre publicou, em 2016, as iniciativas que a gestão estava adotando dentro do programa Cidades Resilientes, como a atualização do plano integrado de transporte. As estratégias são focadas em prevenção de risco, mobilidade urbana e democratização do acesso à educação. Além de Porto Alegre, integram essa iniciativa os municípios de Salvador e Rio de Janeiro.

Plano Marshall

Em comum, os posts alarmistas afirmam que as chuvas no Rio Grande do Sul — manipuladas por essa nova ordem mundial — fazem parte de um plano global dominado pela China. Algumas dessas publicações afirmam que essa estratégia se dará a partir de um "Plano Marshall". Essa alegação começou a circular após o governador Eduardo Leite (PSDB) afirmar em entrevista que o estado precisaria "de uma espécie de Plano Marshall de reconstrução". As publicações lembram estratégia semelhante usada à época da pandemia da Covid-19 — a de criar o caos e incerteza do futuro diante da tragédia. 
"Alguns itens como desapropriação, restrições de uso de terra, zonas de exclusão, Lockdown Climático, realocação em massa, obrigatoriedade de vacinação? Sim, isso mesmo controle social E o Estado do Rio Grande do Sul é o primeiro e não o último Estado da América Latina. Alvo desse ataque, a Fundação Rock Feder selecionou trinta e três cidades para o desafio de resiliência na América Latina, como Porto Alegre e Rio de Janeiro. Elas foram as cidades citadas no ano de 2013", diz uma das publicações.
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram a ter duas prioridades: conter o avanço comunista e garantir os mercados europeus. Dentre os objetivos principais do Plano Marshall estavam a expansão do comércio internacional, a garantia da estabilidade financeira interna e o desenvolvimento da cooperação econômica europeia. 
A analogia de Eduardo Leite ao Plano Marshall foi usada para acelerar a ajuda a áreas atingidas pelas chuvas no Rio Grande do Sul. "A gente vai precisar de medidas absurdamente excepcionais, o Rio Grande do Sul vai precisar de uma espécie de um Plano Marshall de reconstrução, daquele da reconstrução da Europa do pós-guerra. A gente vai precisar de um plano de excepcionalidade em processos, em recursos, em medidas absolutamente extraordinárias porque, como eu insisto, quem já foi vítima da tragédia não pode ser vítima depois da desassistência", afirmou. 
Na sexta-feira (24), foi sancionado o Plano Rio Grande - programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do Estado do Rio Grande do Sul. Leite afirmou em entrevista que esse projeto é o nome do “Plano Marshall” que ele solicitou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Plano Rio Grande apresenta três eixos: ações emergenciais, ações de reconstrução e conjunto de planos para o futuro do estado. 
Estragos causados pela enchente em escola de Eldorado do Sul. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Especialistas apontam causas da inundação

As enchentes no Rio Grande do Sul foram resultados de diversos fatores, conforme explicado por especialistas, como o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS). Uma nota técnica publicada pelo Núcleo de Pesquisa em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos - GESPLA, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca três principais fatores causas das enchentes no estado. Dentre eles, o de natureza meteorológica, que "combinou efeitos do El Niño, zona de baixas pressões, presença de calor e umidade, que contribuíram para bloquear frentes frias e concentrar áreas de instabilidade sobre o estado, resultando em grandes acumulados de chuva", explica. Esses efeitos estão se intensificando cada vez mais devido às mudanças climáticas, diz o estudo.
A nota também cita fatores de natureza geomorfológica/hidrológica. Os rios Jacuí, Taquari e Caí, por exemplo, nascem e escoam por regiões mais altas, em terreno montanhoso, e que são mais susceptíveis aos deslizamentos e movimentos de massas que transportam sedimentos para a água. "É um conjunto de características que faz com que chuvas provoquem rápidas respostas de escoamento. Ao se aproximarem da região metropolitana de Porto Alegre, os rios fluem por uma região mais plana, com áreas inundáveis. A água, que vem escoando de forma rápida, perde velocidade ao extravasar para essas planícies", explica. 

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Maiquel Rosauro
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