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Com 117 canais de Telegram e 15 perfis no X, Rússia busca aliados latinos
A migração de russos para a América Latina cresce de maneira vertiginosa desde o início da guerra com a Ucrânia. Ao mesmo tempo, o número de canais digitais alinhados à Rússia e mirando a região também aumenta. 
Ao longo do mês de maio, uma aliança investigativa formada por Chequeado, na Argentina, e Lupa, no Brasil, coletou dados e analisou o uso dos canais oficiais da diplomacia russa e concluiu que, somando embaixadas, consulados e agências de notícias estatais conectadas ao Kremlin, o país controla ao menos 117 canais no Telegram e 15 perfis  no X (antigo Twitter). Entre as mensagens difundidas estão as que tratam EUA e OTAN como ameaças, justificam a guerra na Ucrânia e promovem o país como defensores da justiça mundial. Juntos, esses espaços digitais alcançam, respectivamente, quase 230 mil assinantes e 550 mil seguidores na América Latina. 
Dados obtidos pela Reuters indicam que, em 2023, Argentina, México, Brasil, Uruguai e Paraguai concederam residência temporária ou permanente a quase 9 mil russos — 800% mais do que o registrado em 2020 (período pré-pandemia). Só na Argentina, foram 3.750 concessões. No Brasil, pouco mais de 1 mil em 12 meses.
Exilados e especialistas no tema migração dizem que as regras de visto e residência para russos na América Latina são simples e que os trâmites não costumam ser demorados. Na Argentina, para se tornar cidadã, uma russa só precisa dar à luz no país. Há diversas reportagens sobre o volume de grávidas que aterrissam mensalmente em Buenos Aires vindas da Rússia. No Brasil, o processo é semelhante. Basta nascer em território brasileiro ou ser filho de um cidadão para obter a nacionalidade. Após o nascimento, os pais podem solicitar um visto de residência no Brasil e, depois de 4 anos, requerer sua naturalização.  
A América Latina também é atraente para os russos por conta de seu estilo de vida e clima, afirmam os especialistas. A região também é indiferente aos debates sobre as sanções internacionais impostas à Rússia nos últimos tempos. Ou seja: os latinos tendem a ser receptivos e os russos trazem na mala recursos econômicos importantes (às vezes ilegais) que geram interesse.
"O Brasil sempre foi considerado um destino exótico para os russos", diz Fabrício Vitorino, jornalista e mestre em Cultura Russa pela Universidade de São Paulo (USP). "Na literatura, no cinema, na música, há uma percepção de terra acolhedora, povo animado e clima agradável. Depois da invasão da Ucrânia, os russos passaram a ter muitas dificuldades para se deslocar, dadas as restrições de visto. O Brasil despontou como um destino interessante, sobretudo pela relativa estabilidade econômica e liberdade na esfera social".
Vitorino também explica que muitos dos russos que chegam à América Latina são opositores ao governo de Vladimir Putin. Críticos a ele e à guerra na Ucrânia. E isso faz com que o Kremlin sinta a necessidade de comunicar seus valores e sua visão de mundo com mais intensidade na América Latina. Multiplicam-se, portanto, os canais digitais usados pelo Kremlin como alto-falante.
Além do russo, os 117 canais do Kremlin no telegram distribuem conteúdos em português e espanhol — como era de se esperar — mas também em alemão, árabe, persa, inglês, sérvio, francês, búlgaro, grego, indonésio, coreano, japonês, letão, filipino, romeno, eslovaco, turco, vietnamita, cambojano, sueco, húngaro e italiano.
No último mês os 15 perfis ligados ao Kremlin e falando para a América Latina tiveram uma frequência média de postagens alta. Só na conta do Ministério de Relações Exteriores russo em Espanhol foram quase cinco publicações por dia.
Nesses espaços, a Rússia dissemina três narrativas. Martela a ideia de que os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) representam uma ameaça ao mundo. Justifica a guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, como sendo uma necessária luta contra o avanço do neonazismo. E se coloca como vítima da perseguição Ocidental. 
Entre postagens obviamente falsas (como as que atacam o documentário vencedor do Oscar "20 dias em Mariupol"), há um claro esforço para recontar a história do século XX.
Nos quatro primeiros meses deste ano, por exemplo, ao menos vinte posts feitos por canais oficiais da Rússia no Telegram ou no X celebraram o país como sendo o único e verdadeiro responsável pela derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Ao recontar o conflito sob sua perspectiva, a Rússia não abre espaço para louvar nenhum outro aliado. Nem França, nem Reino Unido, nem Estados Unidos. Veja exemplos disso aqui, aqui e aqui.
A Rússia também propaga na América Latina ideias que parecem vindas do túnel do tempo, destinadas a reviver o espírito da Guerra Fria.
No dia 11 de abril, por exemplo, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia postou em um de seus canais de Telegram em que se fala espanhol uma notícia sobre o lançamento de um foguete cargueiro de 773 toneladas. O post enfatizava que o aparelho utilizava querosene e oxigênio líquido como combustíveis, lembrando as disputas tecnológicas que marcaram a escalada aeroespacial travada com os Estados Unidos nos anos 1960-1970. 
Em um movimento similar, em 6 de maio, a embaixada russa do México postou um estranho "lembrete aos EUA". Destacava que o cosmonauta russo Yuri Gagarin havia sido o primeiro homem a fazer um voo espacial na história. E o post era só isso mesmo.

EUA e OTAN

Ciente de que, por razões históricas, o sentimento anti-imperialista e contrário aos Estados Unidos encontra adeptos entre muitos latino-americanos, a Rússia usa suas comunicações digitais em português e em espanhol para angariar críticos à aliança militar ocidental.
"O resultado das "intervenções humanitárias" da #OTAN ao longo dos últimos anos é o mesmo: países arruinados e desintegrados, pobreza, agravamento dos problemas humanitários, vítimas humanas em massa, milhões de migrantes", publicou no X, em 4 de abril, a Chancelaria Russa.
Nesse movimento abertamente contrário ao Ocidente, entendido como uma região neocolonialista, Moscou gosta de se apresentar aos latinos como sendo uma nação aberta à integração mundial, em antagonismo ao imperialismo americano, que só pensa em si próprio.
Nos posts que faz para a América Latina, a Rússia alterna momentos de fraqueza e de valentia. Há momentos em que o Kremlin se coloca como grande vítima e reclama, por exemplo, da "censura digital" que as big techs americanas fazem a canais, perfis e conteúdos conectados a Moscou. 
Em outros momentos, no entanto, a Rússia fala grosso. Em 15 de maio, a mesma embaixada da Rússia no México fez um post no X intitulado “O cinismo do Ocidente” e colocou para tocar junto a ele um vídeo de Antony Blinken, o secretário de Estado dos EUA, tocando guitarra em um clube em Kiev durante a visita que ele havia feito à Ucrânia dias antes.
Do ponto de vista russo, os latino-americanos (e os migrantes que aqui se enraizaram) deveriam acreditar que a Rússia é uma peça fundamental para uma boa geopolítica mundial. "Sem uma Rússia forte e soberana, é impossível ter uma ordem mundial estável", postou no X a chancelaria do Kremlin em 29 de fevereiro.
E, para conquistar adeptos, a Rússia se proclama — em português e espanhol — como defensora dos direitos humanos e até da soberania nacional dos países. Ignora, por completo, a invasão da Ucrânia de 2022, a anexação da península da Crimeia em 2014 e todo o histórico de dominação que acumula em seu currículo. 

A guerra na Ucrânia: Autodefesa e Necessidade

Quando fala para os migrantes russos e os latinos sobre o que ocorre na Ucrânia, os canais oficiais do Kremlin promovem duas narrativas claras: uma sobre a península da Crimeia e outra sobre o atual conflito. Ambas, no entanto, são falaciosas.
Em 18 de março, o perfil do Ministério de Relações Exteriores da Rússia que se comunica em espanhol no X comemorava que a Crimeia "havia florescido [sob o comando de Moscou] e se convertido numa das regiões que mais rápido se desenvolvem no mundo".  Reportagem da agência alemã DPA fala, no entanto, de uma "tensa calmaria" na península. O think tank Wilson Center aponta, entre outros dados, que, entre 2014 e 2022 foram computadas mais de 5 mil casos de violação de direitos humanos na região – em especial contra os tártaros (grupo étnico local).
Em 6 de abril, o embaixador da Rússia no Uruguai publicou um artigo no tom da chancelaria. Escreveu que a qualidade de vida na Crimeia melhorou e que isso se deu após a “reunificação” da região com a Rússia. 
Quando fala da atual guerra, os canais russos na América Latina insistem em dizer que a intervenção militar na Ucrânia é necessária para trazer a paz de volta à região e proteger o mundo de uma suposta ameaça neonazista. Moscou também costuma pregar que busca uma solução pacífica para o conflito, que já dura mais de dois anos. Putin, no entanto, não mostrou qualquer reação pública aos 10 pontos de paz propostos pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Os ucranianos vêm pedindo ao Ocidente que pressionem Putin a sentar à mesa de negociação.
Nos posts de X vindos da Rússia, o tom maniqueísta sobre a Ucrânia é constante. O país aparece como uma ferramenta do imperialismo estadunidense e como fantasia da OTAN
Também é comum ver publicações acusando o governo ucraniano de ser “russofóbico” e a Ucrânia de ser "um Estado abertamente terrorista" – o que torna, digamos, obrigatória a intervenção que a Rússia faz no local. Não há qualquer prova disso.

Estratégia documentada

Em 2014, depois de participar de um evento em que se debatia a anexação da Crimeia pela Rússia, a então chanceler alemã Angela Merkel disse que o presidente russo Vladimir Putin vivia em “outro mundo”. A visão do russo em relação ao que ocorria na Ucrânia era tão divergente do resto dos participantes do encontro que Merkel parece ter ficado sem muita diplomacia para tratar do assunto.
Fato é que esse mundo alternativo de Putin está documentado e virou política pública. Em março do ano passado, o presidente russo aprovou um conceito de política externa (ver seções 7 a 10) totalmente novo e é a partir dessas novas premissas que toda sua diplomacia — inclusive as digitais que miram os latino — se baseiam.
O documento possui um capítulo dedicado à comunicação, o qual aponta que o apoio midiático no estrangeiro busca "contrariar a campanha de propaganda anti russa coordenada levada a cabo sistematicamente por países hostis e que envolve desinformação, calúnia e incitamento ao ódio". Ou seja, a ampla rede de comunicação da Rússia no exterior faz parte de uma política de estado.
O Decreto nº 229/2023 possui política específicas voltadas a diferentes regiões do mundo: países pós-soviéticos, Ártico, Continente euroasiático (incluindo China e Índia), Ásia-Pacífico, Mundo islâmico, África, América Latina e Caribe, Região europeia, Estados Unidos e outros países anglo-saxônicos, além do Antártico.
Para a América Latina e Caribe, o documento diz que a Rússia tem interesse em ajudar, países sob a pressão dos EUA e seus aliados, a manter sua soberania e independência a partir de cooperação de segurança, militar e técnico militar. Aponta também que busca reforçar a amizade e compreensão mútua com Brasil, Cuba, Nicarágua e Venezuela, além de desenvolver relações com outros países.
Putin acredita e quer que não só os russos migrantes como os latino-americanos acreditem que o mundo seria mais justo se fosse multipolar. Só não joga luz em seu desejo de ver a própria Rússia sendo um desses novos pólos de dominação. A América Latina poderia ser seu playground.
Procurado para comentar os temas abordados nesta reportagem, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia não retornou o contato. O texto será atualizado se houver resposta.

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Maiquel Rosauro
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