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Negacionistas associam enchentes no RS a ‘arma ultrassecreta’ chamada Haarp
23.05.2024 - 15h31
João Pessoa - PB
Posts disseminam, sem provas, que efeito climático no Rio Grande do Sul foi provocado por arma ultrasecreta. Foto: Reprodução. 
Inundações, como as ocorridas no Rio Grande do Sul, têm sido alvo de teorias conspiratórias nas redes, atribuindo sua causa a uma suposta 'arma ultrasecreta' conhecida como Haarp. O Programa de Pesquisa em Aurora Ativa de Alta Frequência (Haarp, na sigla em inglês) é apresentado como uma projeto científico que supostamente teria como objetivo dizimar partes do mundo para fins de domínio econômico, conforme alegam as publicações sem evidências ou qualquer embasamento científico. 
Essas teorias infundadas, promovidas por negacionistas, afirmam que esse transmissor seria capaz de emitir ondas com força exponencial para manipular o clima. De acordo com muitas das postagens, um exemplo de evento climático extremo causado pelo Haarp seria o furacão Katrina, que atingiu os Estados Unidos em 2005. As redes sociais também já chegaram a disseminar que o ex-presidente Barack Obama teria utilizado esse transmissor para criar artificialmente o furacão Sandy, em 2012, com o suposto objetivo de se mostrar como 'verdadeiro' líder e ganhar respaldo para vencer mais uma vez as eleições norte-americanas daquele ano. 
No caso específico do Rio Grande do Sul, especula-se que a China estaria por trás da tragédia para dominar o Brasil. "A CHINA montou uma base da HAARP no Brasil, fica no Maranhão, para causar essa destruição, era função das Forças desarmada fechar essa base do inferno...o povo do Maranhão tem que filmar essa  base, divulgar essa arma de guerra biológica ASSASSINA", diz um dos posts.
Outra publicação menciona que a destruição do estado do Rio Grande do Sul seria parte de  um projeto econômico para controlar a produção agrícola. "O Rio Grande do Sul é um dos maiores celeiros do Brasil. Este estado é crucial para a produção alimentícia nacional, destacando-se na produção de soja, milho e trigo, além de ser um grande produtor de carnes, incluindo bovina, suína e de aves. A região também é reconhecida pela sua produção de arroz, contribuindo significativamente para o abastecimento interno e para as exportações", alega outra publicação.
Imagens do Haarp divulgadas pela Universidade do Alasca
Nas redes, o tema ganhou repercussão. Dados extraídos do CrowdTangle, ferramenta de monitoramento que permite estudar o fluxo de informações que circulam no Facebook, mostram um pico de publicações a partir do dia 7 de maio deste ano. Ao menos 350 posts sobre o Haarp e 32,7 mil interações foram registrados em grupos e perfis.
Não há qualquer prova científica que demonstre que as enchentes no Rio Grande do Sul tenham relação com o sistema Haarp, de acordo com especialistas ouvidos pela reportagem. A Lupa reuniu as principais dúvidas sobre esse projeto, confira:

O que é o Haarp

O Programa de Pesquisa em Aurora Ativa de Alta Frequência (Haarp, na sigla em inglês) é um projeto científico que começou a ser construído em 1993 e teve sua primeira instalação concluída em 1994. A conclusão de toda a estrutura se deu em 2007. A sua base fica localizada no Alasca, Estados Unidos.
O Haarp estuda as propriedades e o comportamento da ionosfera. A agência espacial do governo dos Estados Unidos, a Nasa, explica em seu site que a ionosfera é uma camada que se estende cerca de 80 a 640 quilômetros acima da superfície da Terra. Ela forma a fronteira entre a atmosfera inferior do nosso planeta e o vácuo do espaço.
A ionosfera da Terra sobrepõe o topo da atmosfera e o início do espaço. Ela é formada quando partículas são ionizadas pela energia do Sol. A ionosfera desempenha também um papel relevante em muitos fenômenos naturais, a exemplo de formação de auroras e a absorção de radiação solar. 
O Haarp inicialmente foi um programa administrado em conjunto pela Força Aérea e pela Marinha dos Estados Unidos. O objetivo era o de pesquisar as propriedades físicas e elétricas da ionosfera da Terra, que poderiam afetar os sistemas militares e civis de comunicação e navegação. Vale lembrar que é na região da ionosfera onde muitos dos satélites em órbita da Terra se encontram, incluindo a Estação Espacial Internacional. Isso significa que esses satélites podem ser afetados pelas condições em constante mudança na ionosfera. Em agosto de 2015, o equipamento de pesquisa foi transferido para a Universidade do Alasca. 
Por meio do sistema Haarp, os cientistas emitem ondas de rádio que aquecem os elétrons e criam pequenas perturbações semelhantes aos tipos de interações que ocorrem na natureza, explica a Universidade do Alasca em seu site. "Com o Haarp, os cientistas podem controlar quando e onde as perturbações ocorrem, para que possam medir seus efeitos. Além disso, podem repetir os experimentos para confirmar se as medições realmente mostram o que os pesquisadores pensam que mostram". Essas ondas, contudo, não são capazes de manipular o clima e os efeitos artificialmente induzidos são rapidamente eliminados.
Segundo pesquisadores da Universidade do Alasca, o sistema Haarp ajuda a preencher lacunas existentes no monitoramento climático. "Isso permite aos cientistas fazer melhores previsões do clima espacial, o que pode ajudar a mitigar os efeitos do clima espacial severo", dizem. 
Além disso, embora exista apenas um local de pesquisa Haarp, a Universidade do Alasca explica que existem outras instalações que realizam pesquisas ionosféricas semelhantes a esse projeto. Um é administrado pela Associação Científica EISCAT em Tromso, na Noruega, e o outro é o Sura, na Rússia. 

Haarp não altera o clima

Em contato por e-mail, o Instituto Geofísico da Universidade do Alasca explicou que as ondas de rádio nas faixas de frequência que o Haarp transmite não são absorvidas pelos níveis de camada da atmosfera que produzem o clima na Terra. Portanto, não teriam como controlar ou manipular qualquer atividade climática.
"Como não há interação, não há como controlar o clima. O sistema Haarp é basicamente um grande transmissor de rádio. As ondas de rádio interagem com cargas e correntes elétricas, e não interagem significativamente com a troposfera", explica.
Além disso, os pesquisadores do instituto reforçam que, se as tempestades ionosféricas causadas pelo próprio Sol não afetam o clima da superfície, não há hipótese de que o Haarp consiga produzir o mesmo efeito. "O Haarp não produz água na atmosfera, não tem capacidade de liberar gases ou líquidos e não interage com a água existente nas nuvens". 
O professor Gilvan Borba, do Departamento de Geofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), explica que os experimentos do projeto Haarp tratam de propagações de sinais de alta frequência, na região da ionosfera polar em condições de perturbações ionosféricas artificialmente provocadas por sinais de HF (alta frequência, na sigla em inglês). 
Ele lembra que a ionosfera é uma camada da atmosfera terrestre situada a alturas significativas, sua base está em torno de 60 km de altura enquanto que o topo se encontra a aproximadamente 700 km. Os fenômenos climáticos, por sua vez, são típicos da troposfera terrestre, isto é, em uma faixa de altura inferior a 18 km. "Assim, não há de se esperar que experimentos ionosféricos venham de alguma forma afetar a troposfera e muito menos o clima. Efeitos troposféricos anômalos, principalmente abaixo de 5 km costumam ter origens dinâmica da própria atmosfera e mais recentemente, na atividade humana", reforça. 

Posts falsos

Dentre os posts compartilhados, há um vídeo que mostra nuvens dissipadas que, segundo a legenda, seria uma prova cabal do sistema Haarp no país. "Uma das melhores fotos sobre manipulação do clima: mostra claramente a formação manifestada pelas microondas e canalizadas para o nosso céu através do radar Doppler e o que é comumente conhecido como HAARP", diz o post.
Post afirma, de forma enganosa, que nuvens dissipadas que aparecem em imagens são provocadas pelo sistema Haarp. Foto: Reprodução.
O professor Ernani de Lima Nascimento, do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica que essas nuvens que vemos no registro são de origem natural e são relativamente comuns — e, portanto, não têm qualquer relação com teorias conspiratórias sobre o Haarp. Esse seria um fenômeno conhecido como "ondas de gravidade". 
"Ondas de gravidade, também conhecidas como ondas de flutuabilidade, ocorrem quando um movimento vertical na atmosfera encontra uma camada estável. Isto dá origem a uma oscilação vertical que se manifesta na forma de uma onda atmosférica. Se esta oscilação ocorrer em um ambiente úmido, uma nuvem é formada no setor onde o ar úmido sobe e condensa o vapor d'água, enquanto que no setor da oscilação onde o ar desce, a nuvem é dissipada. Isto forma uma sequência de faixas horizontais de nuvens alternando com faixas horizontais de ausência de nuvens, produzindo um padrão comumente apelidado de 'ruas de nuvens”, explica o professor.
Sobre o suposto radar meteorológico Doppler, também citado no post enganoso, o professor reforça que ele não produz movimentos na atmosfera, "apenas rastreia os movimentos atmosféricos já existentes que, por sua vez, resultam das Leis da Física agindo naturalmente na atmosfera". 
As enchentes no Rio Grande do Sul não foram o único evento climático usado como pano de fundo para perpetuar essa teoria conspiratória sobre o Haarp. Em 2012, as redes sociais compartilharam um boato afirmando que o furacão Sandy, que atingiu os Estados Unidos, foi uma manobra política do Irã. "Fontes nos confirmaram que Sandy, a tempestade que assolou os Estados Unidos, foi gerada por tecnologias altamente avançadas desenvolvidas pelo heroico regime do Irã, que apoia a resistência, ao lado de nosso regime sírio", dizia trecho do post compartilhado.
Em 2020, teorias associaram a ocorrência de terremoto e de um acidente aéreo no Irã a um suposto ataque norte-americano. De acordo com as publicações infundadas, os Estados Unidos usaram o sistema Haarp para manipular a ionosfera e causar o terremoto. Segundo a Universidade do Alasca, os cientistas que podem conduzir pesquisas são físicos e engenheiros universitários, estudantes, cientistas do governo e cientistas de empresas comerciais com interesse na ionosfera e na teoria e aplicações da ciência da comunicação e do rádio.   

Efeitos climáticos no RS

Comerciantes retiram entulho e limpam lojas para retomar os negócios no Centro Histórico de Porto Alegre. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
As enchentes no Rio Grande do Sul se deram por diversos fatores — e não há embasamento que comprove que as chuvas foram "fabricadas" propositalmente. A explicação é dada por diversos especialistas, a exemplo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS). 
Uma nota técnica publicada pelo Núcleo de Pesquisa em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos - GESPLA, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), elenca três fatores das enchentes do Rio Grande do Sul. Dentre eles, o de natureza meteorológica, que "combinou efeitos do El Niño, zona de baixas pressões, presença de calor e umidade, que contribuíram para bloquear frentes frias e concentrar áreas de instabilidade sobre o estado, resultando em grandes acumulados de chuva", explica. Esses efeitos cada vez mais vêm aumentando devido às mudanças climáticas, diz. 
A nota também cita fatores de natureza geomorfológica/hidrológica. Os rios Jacuí, Taquari e Caí, por exemplo, nascem e escoam por regiões mais altas, em terreno montanhoso, e que são mais susceptíveis aos deslizamentos e movimentos de massas que transportam sedimentos para a água. "É um conjunto de características que faz com que chuvas provoquem rápidas respostas de escoamento. Ao se aproximarem da região metropolitana de Porto Alegre, os rios fluem por uma região mais plana, com áreas inundáveis. A água, que vem escoando de forma rápida, perde velocidade ao extravasar para essas planícies", explica. 
O professor Lafayette Dantas da Luz, Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA), cita entre os motivos das fortes chuvas e das enchentes no Rio Grande do Sul os efeitos climáticos, primeiramente, mas também o relevo e a hidrografia, a ocupação e as transformações no uso dos solos, o modo de urbanização, falhas das administrações públicas locais. 
Alertas baseados no esforço do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] há muito apontam para um aumento dos extremos climáticos na região, com chances tanto de chuvas mais intensas como de secas mais prolongadas. Tais alertas têm sido minimizados ou ignorados por parte da sociedade, e negligenciados quase que totalmente pelos gestores/administradores públicos
– Professor Lafayette Dantas da Luz, da UFBA, em fala dada ao site do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia. 
Um estudo publicado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostra que houve um aumento exponencial de 30% no volume de precipitação na região Sul — ao analisar os dados entre 1961 e 2020. Esse acréscimo na média anual indica que a região pode estar mais suscetível a desastres por conta da intensificação das chuvas, explica o estudo. “Eventos como este tendem a ser potencializados com as mudanças climáticas, tornando-se ainda mais intensos e frequentes”. 

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Ítalo Rômany
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